Jogadores de futebol são o melhor exemplo, mas é tão óbvio que esta mera menção já é redundante. Mas foi a música que me chamou a atenção para um fato curioso e desesperador: os medíocres é que são populares.
Não precisa se esforçar (eu não vou) para trazer à mente no cenário musical atual exemplos de composições musicalmente medíocres, letras poeticamente medíocres, vocalistas orgulhosamente medíocres, instrumentistas que nem sabem tocar seus instrumentos, e tudo isso mesmo assim, mais do que ser incrivelmente popular, movimenta MUITO dinheiro. Mas a desvalorização da competência não é só culpa da arrogância dos competentes. Até porque a arrogância é um bom indício de necessidade de mascarar a mediocridade para que pareça competente. É provável que esta seja uma culpa coletiva nossa. E eu admito a minha.
Vou começar com 2 exemplos opostos.
Minha irmã e minha namorada estão prestando este ano vestibular para o curso de Arquivologia da Furg. Arquivologia (no Aurélio, "Estudo ou conhecimento dos arquivos; arquivística") é um curso novo e badalado como tendo um amplo mercado de trabalho. Ouvi falar que a Petrobrás tá de olho em estagiários nesse curso. Eu, particularmente, desdenho do curso. Eles vão estudar a ciência e a técnica de uma função que sempre foi desempenhada por outro tipo de profissional. Ou seja, não que não serão capazes, ou mais qualificados, mas acho que vai demorar para essa nova profissão ser absorvida pelo mercado. Pra que descartar a experiência pela técnica, né?
Mas vejo isso positivamente. É um passo adiante num país onde a pouco tempo se discutia sobre a necessidade de faculdade de jornalismo. A obrigatoriedade deste curso para os que exercem a profissão seria um desrespeito ao direito de livre expressão. Ora, todos nós teríamos o direito de veicular notícias, não é?
Não, não é. De certa forma, ao contrário da Medicina, não há uma lei restringindo o manejo da informação. Id est, ninguém não formado é preso por exercício ilegal da profissão se publicar um fato verídico como seria se tivesse feito uma cirurgia, mesmo que bem sucedida. Alguns podem argumentar que acaba se formando um cartel que monopoliza a divulgação dos fatos.
Mas é isso que acontece? Não estou fazendo jornalismo amador num blog que retrata a realidade da minha comunidade? Aquela comadre fofoqueira não está exercendo esta mesma profissão?
É claro, eles querem tirar essa exigência no contratamento de pessoal pelos veículos de mídia. Mas isso gera uma série de questões. Qual o problema? Que lei impede jornais e televisão de publicar informação gerada por técnicos de outras áreas, até por leigos? Nossos meios de comunicação não mostram exaustivamente opinião popular? Quem forma a opinião? Se tivéssemos um jornalista não-formado, suas reportagens não passariam pelo crivo de um editor, este formado?
Isso, pra mim, é mais uma tentativa em direção à ditadura do já hegemônico Império da Mediocridade. Ufa! Finalmente cheguei no ponto!
Essa é mais recente: quem viu o Lula se queixar do excesso de fiscalização? Ora, no nosso país, onde todos sabem que as leis são maravilhosas no papel mas não são cumpridas por falta de fiscalização? Tá certo, a queixa do presidente tem sua justificativa, qualquer fiscal pode parar uma obra. Isso é verdade, e imagino que nossa burocracia ainda herdou a morosidade da ditadura: uma vez parada, vai demorar pra voltar a andar. Mas, então, por que não se busca a excelência técnica, tanto na "pequena" (sic) máquina de governar quanto na "grande" máquina de fiscalizar? Sim, com projetos mais embasados tecnicamente, o Executivo estaria menos sujeito a imprevistos. E com um corpo fiscal mais qualificado, teríamos apenas entraves justos e necessários.
O problema é que as duas máquinas trabalham na tábula rasa. É um medíocre tentando fazer, e outro tentando parar. Nesse cenário, pessoas firmes são rebaixados a jacobinos exaltados. O bom é ser complacente, agrada o laisser faire, laisser passer. Estou enganado, ou não foi isso que aconteceu com Marina Silva?
Ver problemas no Planalto é fácil. Basta ter olhos. Ver as raízes desse problema dentro de nós é que é o bus ilis. Quem gosta de meticulosidade? O Lula e seus asseclas não são "ô, raça triste!", não. São humanos como eu e você. Nós deixamos, por nossa inabilidade, ou por nosso conformismo, ou simplesmente para não se incomodar, que uma corja de medíocres nos ditasse o futuro. Desde aquele que te reprovou numa entrevista de emprego, até aquele que preferiu investir a verba em obras eleitoreiras. Não há uma guerra entre competentes e medíocres, há sim medíocres de todos os lados, medíocres fomentados pela nossa democracia deformada, não só no Brasil, mas mundo afora. Ou vocês querem me convencer que aquele teatro que são as eleições norte-americanas é exemplo de democracia?
Voltemos ao exemplo das faculdades. Um pedreiro é um pedreiro. É bem possível haver pedreiros muito mais honestos e competentes que muitos engenheiros civis. Mas know-how não é tudo. Aí surge uma nova tecnologia em engenharia civil mais barata e prática, e seus parâmetros, talvez complexos, são divulgados em linguagem técnica. Ora bolas, longe de jargão exclusionista, linguagem técnica é útil em sua aplicação específica. Aí, quem vai estar na vanguarda da construção civil?
Um exemplo mais próximo: profissionais em geoprocessamento (como estou estudando para ser) são freqüentemente desdenhados. Diz-se que qualquer profissional da área da Informática pode, dada a evolução dos softwares e dos serviços de Sensoriamento Remoto, gerar produtos georreferenciados sem sequer a mínima noção de Cartografia ou Geodésia. Oh, céus, qualquer um com Google Earth pode gerar cartas topográficas, certo?
Errado. O conhecimento específico, antes restrito à Agrimensura e congêneres, proporciona uma visão plena do quadro e uma acurácia no julgamento dos resultados. Não é apertar os botões e confiar cegamente nas máquinas e seus imprevistos. Quem adquiriu todo aquele conhecimento é capaz de imaginar, tão somente por números ou imagens "o que estaria acontecendo se eu estivesse ali com um teodolito?". Porém mais e mais serviços em geoprocessamento vem sido delegados a apertadores de botões. São mais baratos que os técnicos. E, se no próprio meio em que esses técnicos se formam, não se reconhece a necessidade de "saber o princípio da carroça para entender a aerodinâmica do carro", por que os consumidores desse tipo de produto vão reconhecer?
Técnicos arrogantes, que desprezam a experimentação específica e postulam por analogias de sua filosofia inconsciente, foram aqueles que diziam ser impossível atravessar o Atlântico em um barco a vapor porque o peso do carvão necessário afundaria a embarcação. A experimentação provou ser possível. Mas não associemos mediocridade ao velho e competência ao novo, nem vice-versa. Me faltam dedos nos 4 membros pra contar quantos profetas do apocalipse da tecnologia previram catástrofes que não aconteceram. A velha máquina não podia ser analisada por jovens olhos.
Bom, acho que por hoje é só pessoal. Se meu texto foi medíocre, consola-me saber que pelo menos ele não está imperando ninguém...
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