segunda-feira, 1 de julho de 2013

Tempo é dinheiro?

Ou "E das diatomáceas da lagoa, a esfarrapada desculpa se esbroa"

Pois é, vocês podem estar sentindo falta das postagens do seu Sumo-Sacerdote Aleatório favorito. Cara, já faz muito tempo desde meu último prakiti, e não creio que tenha sido dos mais relevantes, embora certamente inspirador. Ou não faz tanto tempo assim. Depende da perspectiva.

Certamente tempo quântico se passou. Tempo biológico, nem se fala, não ficamos mais jovens desde minha última postagem. Mas e tempo psicológico? OK, somente um Sumo-Sacerdote Aleatório do balacobaco seria capaz de transformar um bloqueio criativo em um texto aprazível, e não tenho contado tanto assim com minha balacobacosidade. No entanto, não sei se é coisa da greve na Universidade que estudo (a qual, sem menor dúvida f*deu os relógios biológicos da grande maioria dos envolvidos e, pior, sem nenhuma conquista), não sei se é uma ímpar condição neurológica, psicológica ou neuropsicológica, não sei se realmente minha fé em toda nossa existência está tendo um momento DR, mas do meu ponto de vista, muito pouco tempo se passou desde nosso último encontro.

É óbvio que não existo para lhes trazer incertezas, muito pelo contrário, existo para embaralhar, etiquetar e pôr cada uma das incertezas que vocês JÁ têm na prateleira menos apropriada, mas mais conveniente. Ou o contrário. Por essa mesmíssima razão, não teria começado esse texto se não tivesse uma teorização psico-socio-metafisico-cultural a respeito de tal assincronia. É claro que tenho! E não estou enrolando para encher texto! Posso ver vocês tremendo com a antecipação! :p

Sentia-me espiritualmente atordoado, criativamente castrado, rocambolisticamente f*dido. Quero dizer, foi um tempo legal, muitas coisas legais (que não posso compartilhar aqui) aconteceram, amei mais do que seria saudável, trepei menos do que seria saudável, insultei mais do que seria aconselhável, fui insultado muito menos do que seria justo, enfim, vivi todo esse tempo. E vida é energia, é criação, é o desequilíbrio das gunas, é toda a manifestação das coisas inexistentes vindo à existencia, uma verdadeira suruba ontológica. No entanto, como estou subordinado à mítica Sociedade Judaico-Cristã Ocidental enquanto ser biológico, uma coisa que tal sociedade considera alma mater de sua existência me faltou: grana.

Quero dizer, olhe pra nós! É, isso mesmo! Todos nós que acordamos mais cedo que gostaríamos, que dormimos mais tarde que seria saudável, passamos menos tempo com quem nos faz bem do que seria aconselhável, delegamos mais valor à pensamentos pré-fabricados do que seria são, confiamos mais em pequenos e inofensívos (ou nem tanto) ópios diários do que seria saudável. Minamos nossa saúde física, mental e espiritual, emburrecemos, empobrecemos, vivemos correndo atrás de dívida de 115% de tudo que existe. E por que raios, me pergunto agora?

Preciso confessar a vocês que sempre sonhei com meu falanstério. Imaginava comprar algumas terras (ou extorquí-las de algum ruralista, ladrão que rouba de ladrão....) e montar a mini-sociedade anárquica temente à Natureza e implacável a Caos e Panku. Mas esse sonho me parece cada vez mais e mais distante. Você pode (e, pelos deuses COMO PODE!) tirar o dinheiro de uma pessoa, mas estou cada vez menos confiante que você possa tirar uma pessoa do dinheiro! Vivemos em um país que tem 5013 anos de pura plutocracia! Regido por uma idéia de ocidentalidade oriunda do continente onde os medíocres meteram na cabeça que eram superiores e, como é natural aos medíocres, sujeitaram todos os outros povos! Minha mãe não conheceu a Natureza, meus avós não conheceram a Natureza, e nossa falta de oralidade ancestral não me permite especular qual dos meus antepassados foi o último a não viver regido pela ganância própria ou de outrém. Viver na Terra, da Terra e para Terra me é um conceito alienígena, que cultivo com o mesmo quadro delusional que faz alguns imaginar como seria se fossem cavaleiros Jedi ou alunos de Hogwarts.

Mas não pensava assim ano passado. Acreditava que ainda era possível. Pois é, nesse ano passei a maior parte do tempo desmonetarizado. Duro mesmo. E isso a princípio não afetou minha dignidade, mas comecei a notar que várias privações socialmente construídas se apresentaram. E comecei a sentir falta de certos prazeres socialmente construídos, prazeres pequenos, acessíveis a qualquer classe trabalhadora.... Aí é que está. A ausência dessas privações e o acesso a esses prazeres são pequenas áreas de conforto que nos faz pensar "como nossa geração é melhor que a de nossos avós" e encarar todo o absurdo que nos é imposto como natural, como aceitável, razoável, como "não há outro jeito". Temos orgulho de sermos fortes, honestos e trabalhadores, mas estranhamente não nos revoltamos contra aqueles que não são nem fortes, nem honestos, nem trabalhadores e que vivem a vida inteira na zona de conforto às nossas custas. Isso mesmo, aquelas nossas gotinhas, eles vivem em um tanque para baleias brancas cheio delas!

"Tudo tem um preço", dizem. É, como queira, mas o preço nem sempre é justo. Tudo tem um valor, e se algo tem um valor infinitamente menor que seu preço, isso chama-se ROUBO. Sem falar que estou falando aqui de uma minoria que pode e prefere, até, pagar preços exorbitantes por coisas sem valor exatamente para ostentar o PREÇO que pagaram. Pense em uma grande marca, qualquer uma. E também de uma maioria que necessita urgentemente com sua própria vida de coisas de valor moderado, disponível por um preço razoável mas que NÃO TEM como pagar. Pense em remédios não cobertos pelo SUS. No entanto, o que tem mais valor não tem preço. E aí você e eu não damos VALOR ao que não tem preço. Nosso critério básico torna-se o preço, porque é tão fácil conquistar o que tem valor! Uma manhã aprasível, um amor sincero, um momento de epifania.... Isso te exige tão pouco e ao mesmo tempo vale tanto! Mas você e eu não ligamos mais para essas coisas, porque TUDO TEM UM PREÇO, não é?

Não, não é. Acabo de dar meu braço a torcer, por isso não posso fazer o discurso do prosaico esquerdista hipócrita que xinga o imperialismo ianque (sic) e come McDonalds. Mas sigo afirmando e, se meu arcabouço teórico e minha conexão celestial me permitem dizer, tenho ainda certeza que não é certo se render. Proponho mais perguntas, e não sugiro nenhuma resposta, como me é lícito não fazer. Viver um drama a cada dia é um saco, mas vestir a Poliana e gritar por uma quase-dúzia de mercenários que não te dariam nada é irracional. E adivinhe! É EXATAMENTE ISSO que estamos fazendo! Vou abordar em outro texto o problema inerente à lastima de boa parte de nossa inteligentsia também torcer por futebol. Mas hoje basta-nos essa reflexão. Não quero levar meus nobres seguidores para o lado vermelho da força, mas aqueles que palmilham Pindorama viram o quão desesperado o conservadorismo está pelo arranhão em seus lucros.

OK, o que o tempo psicológico tem a ver com isso? Bem, meu tempo psicológico sequer passou nesses seis longos meses, pois minha preocupação primordial era saciar a fome. Não deveríamos querer mais "prazer pra aliviar a dor" e sim entender e atacar o motivo da dor. Pode até ser que a necessidade seja mãe da invenção, mas ponha um Einstein em um hellhole capitalista sem um centavo e faça-o pensar na Relatividade. Não que agora eu esteja mais tranquilo ou menos faminto. Mas, longe de qualquer mágica burra, ESSE é o poder das palavras! Aqui, refletindo com vocês, consigo entender que vida é mais que comida. E consigo superar meu bloqueio.

Talvez isso funcione para todos.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Requiem do futuro sem passado

E o velho disse:
"Essa é a primeira flor
Logo as árvores estarão cheias delas".

O Sol acordou, e encontrou a grande árvore
E iluminou a primeira flor nela pendurada
Não qualquer flor
Não havia beleza pendurada na grande árvore
Havia dor
Não a promessa de um recomeço
Havia fim
Não poesia na grande
Havia indiferença
Não havia na árvore
Perspectiva
Só invisível injustiça.

A velha gritou
Chorou para acordar a tribo
E a flor continuou pendurada na árvore
Mórbida flor
Triste flor
Não-flor flor
Flores prometem frutos, sementes e mudas
Não esta
Flores são mães
Esta é filha
Só este monstruoso poeta chamaria a flor de flor
E o velho.

Não chamem o velho de cínico
Não chamem o velho de sádico
Não chamem o velho de indiferente
Chamem-no cauterizado
Quantas primaveras te despertaram com choros, ó velho?

E o velho disse:
"Essa é a primeira flor
Logo as árvores estarão cheias delas".
O Sol acordou, e encontrou a grande árvore.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Efemérides Eternas 2012

Ou retrospectiva dos piores últimos dias de 2012


Pois é, vosso sumo sacerdote aleatório favorito não anda bem da cabeça. Não falo da loucura criativa que não é mais que minha obrigação. Estou falando de raciocínio embotado, falta de foco, prioridades embaralhadas, auto-sabotagem. Enfim, acho que todo dscordiano passa por esse dia. Lembro quando um certo reverendo I. (aquele da cabala com um número alto de felinos pertencentes a um certo físico alemão) passou por isso. No meu caso, parte se deve a uma série de experiências patafísicas com as quais não estava acostumado, somado à experiência de fim de ano, que é torturante para qualquer um que tenha um pedaço de uma mulher morta costurado em si.

Mas, olhando agora para trás, doismiledoze foi um bom ano (exceto porque, ao contrário das expectativas, o mundo não acabou :( ). Foi um ano vermelho, encarniçado, apaixonado, de sangue, suor e Johnny Walker Red. Um ano onde todas nossas tolices, mais que permitidas, foram exigidas, exploradas, ordenhadas até a última gota. No entanto, doismiledoze é um ano egoista: o que aconteceu em 2012 fica em 2012. Talvez seguindo meu exemplo profissional, no prisioner taken. E, talvez seguindo o exemplo de doismiledoze, fui extremamente egoísta esse ano. Gostaria de ter sido menos. Gostaria de ser menos no ano que vem. Sei que egoísmo não pode interferir em meu dever para com vocês, meus danados queridos, mas acho que começo a me assemelhar com nosso inimigo. E isso é ruim. Fui menos negligente que o de costume com esse humilde blog, mas mesmo assim não fui tão produtivo quanto queria ter sido.

De qualquer forma, não faço votos de feliz ano novo para vocês. Faço, sim, votos de que tenham aproveitado esse terrível ano vermelho. Do meu ponto de vista, tanto um quanto o outro são irrelevantes.

Espero sinceramente que em 2012 você tenha....

....dançado boogie com os balrogs de Tolkien.

....se apaixonado por uma gata zumbi.

....se esforçado para salvar uma serpente negra, mesmo sabendo que ela iria lhe morder.

....se auto-mutilado.

....sido visto por "a" como "b", e vice-versa.

....gastado dinheiro em bobagem.

....feito aquisições irrelevantemente satisfatórias.

....fodido o sistema capitalista de alguma forma.

....descoberto que as garotas de São Francisco não gostam do seu cabelo.

....provocado terror no coração dos transeuntes.

....perdido tônus muscular.

....tido cãimbra durante uma seção de kama-sutra.

....voado.

....descoberto uma beleza em você mesmo que ninguém consegue ver.

....ficado de bobeira com os amigos.

....tido uma coragem misteriosa e inédita por um curto momento.

....despertado a piedade alheia.

....desprezado a piedade alheia.

....passado fome.

....se decepcionado com sua banda favorita.

....descoberto uma nova banda favorita.

....flutuado em direção ao Sol.

....ampliado seu vocabulário.

....feito uma criança sorrir.

....tido uma epifania catastroficamente irrelevante.

....desistido de um sonho por alguém que você ama.

....dado o cu.

....comido muita salada.

....contemplado a imanência do desalinho das gunas cada vez menos perturbadas.

....aprendido uma nova língua.

....violado o acordo gramático Brasil-Portugal.

....confortado alguém que precisava.

....decepcionado amigos.

....tomado muito sorvete de choco-belga sozinho.

....borrado a maquiagem por quem não merecia.

....borrado a maquiagem por quem merecia.

....irritado seus amigos com sua auto-comiseração.

....vivido.

....morrido.

E acima de tudo:

Que você tenha tentado mudar o mundo.

Até a próxima, e dia 1º saberei de que cor será 2013. o/

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Um desafio epistemológico pra vocês

...pra vocês, porque pra mim está claro que vocês e eu somos racistas, não por escolha, mas porque vivemos num sistema racista


Francamente, o racismo é um assunto que já está me entediando. Ele dorme e acorda comigo mais do que se eu estivesse casado com uma pessoa racista E de outra etnia que não a minha. Parte porque ainda estou trabalhando em um grupo de extensão e pesquisa dedicado aos quilombos aqui do sul, e um dos fatores que a gente vê com nossos próprios olhos no presente e no passado desse povo, os descendentes dos resistentes, é esse racismo.
Mas também porque tenho um séquito de cyberamigos pensantes de diversas ideologias nas redes sociais num momento onde o governo aprova, quase unilateralmente como lhe é próprio, medidas que, para meu espanto, causam moderadas polêmicas (esperava que não houvessem). Não vejo no meu dia-a-dia de universitário e cyberpessoa um racismo ignorante (vocês sabem, no meu dia-a-dia de SSA, o que vejo é ESPECISMO, mesmo). Na verdade não vejo sequer racismo no sentido senso-comum da palavra, em sua forma pura, violenta e boçal, até porque isso é crime. Vejo mais um racismo "sutil", um anti-anti-racismo¹, mas BEM pronunciado. Mas venho da periferia, do que Caetano e Gil chamariam de "quase pretos de tão pobres". Uma equação nefasta aparece diante de mim, enquanto ser sensorial. Estou em ambas as pontas de uma cadeia social e vejo uma discrepância. Como ser pensante, minha missão é descobrir o que acontece entre essas duas pontas.

Em parte, esse anti-anti-racismo¹ de que falo prova nossa teoria de um racismo sistêmico, tão arraigado e quotidiano que consegue ser imperceptível ao observador quotidiano. Sabe, como a lei da Inércia, que vai contra qualquer senso comum, pois conta com uma excessão (o atrito) praticamente ubíquo. Mas ninguém tem dificuldade pra aceitar uma quebra do lugar comum tão antiga assim. Já teorias raciais, que no Brasil estão 40 ou 60 anos atrasadas em relação aos EUA, por exemplo, ainda encontram essa resistência e vão demorar algum tempo pra serem compreendidas. Mas como os físicos newtonianos não sentaram e esperaram, eu também não vou sentar. Tenho fé que vivemos um tempo como o de Pasteur, quando ninguém aceitava muito bem a idéia de bichinhos invisíveis em toda a parte que faziam as coisas estragarem e as pessoas adoecerem. Mas ao invés de bichinhos, hoje são barreiras invisíveis, feitas de memes, de mentalidade, arraigadas na cultura e reproduzidos de ponta a ponta, do sacristão ao cientista, do pedreiro ao ator, do bancário ao banqueiro, como convém ao que é cultural (seria legal falar mais disso depois).

Dos dois lados dessas barreiras há pessoas. No caso da barreira racial, eu estou do mesmo lado que você, leitor branco, mas quando tentei atravessá-la, encontrei resistência. E os que estão do outro lado, os excluídos, os que tem direitos assegurados do lado de cá mas não conseguem atravessar a barreira, se dividem em muitos grupos. Um são os chatos, insistentes, paranóicos (não é assim que os chamamos?) que lutam contra a barreira, protestam contra ela, em especial aqueles que a ultrapassaram e sabem que é ela uma dureza. Mesmo entre esses existem diferenças. Há os que estudam a barreira e se juntam com caras como eu, que também querem acabar com a barreira. Há também quem reaja com violência contra a barreira, e acabe por adotar um posicionamento agressivo e antipático. Eu não posso culpá-los, você pode? Há também os que, talvez pelo exemplo de sofrimento de quem lutou, se acomodou e se conformou a não pegar o que é seu por direito do outro lado da barreira. Mas há uma grande maioria que, depois de séculos de permanência dessa barreira, nem sabe que tem direitos do outro lado dela. E você, leitor branco, ignora essas diferenças.

Uma das forças da natureza é essa: sempre subestimar a sensorialidade alheia. Fui chamado de hipocondríaco minha infância inteira a cada vez que reclamava de uma dor ou um mal estar, tanto que isso ficou introjetado em mim e passei a ignorar minhas dores e mal-estares. Hoje, com uma saúde deteriorada, vejo que não só o problema era grave (a ponto de eu sentí-lo) como o mais superficial exame teria confirmado minhas infantis suspeitas e tratado o problema cedo. Deve ter um nome, essa força nefasta da mentalidade humana de subestimar o ponto de vista alheio. Mas me foge agora. (Mesmo hoje quando percebo um problema num sistema de relacionamentos humanos, ouço "é coisa da tua cabeça". É claro que é coisa da minha cabeça, mas foi você que pôs isso aqui!)

Enfim. É dessa força que o racismo, esse ser artificialmente construido na gênese de nosso Estado em harmonia com o sistema econômico inédito importado da Europa, se vale para sua condição morta-viva² de operação. Ora, você branco não vê racismo porque não é em você que ele age. Então, saiba que existem sim negros "hipocondríacos", uma minoria bastante vocal, que parece tão dominada pelo senso comum quanto você, fazendo exatamente o que você faria no lugar dela, e têm o mesmo direito de ser como são que você tem de ser como é. Mas existe um pessoal estudando o racismo no sistema, que não te odeia, não te culpa nem quer tirar nada que é teu. Entretanto, ambos sentem na pele a força desse dispositivo. Por isso, não foi dado a você o direito da metonímia de que todo anti-racista luta contra moinhos. Você tem o direito de não opinar sobre a Palestina porque não é palestino, sobre religião por que não é religioso, bem, faça uso desse direito para não opinar sobre o racismo se você não o vê ou sente. 


¹Aliás, adorei o termo, anti-anti-racismo! Que recursivo! Talvez seja a nomenclatura certa para o truque usado para que pessoas não-conscientemente-racistas apoiem o dispositivo racista. Ao chamar alguém de racista, ele sempre pode dizer, mudando o foco, "não tenho nada contra os negros". Ao chamar alguém de anti-anti-racista, deixamos claro que queremos dizer que ele se opõe aos movimentos de luta por direitos. Perspicaz, não?

²Vem da teoria de "dispositivo zumbi", um cruzamento de um conceito foucaultiano com o jargão linuxiano. O racismo brasileiro seria um dispositivo zumbi porque foi criado com propósito bem definitivo, mas continua operando mesmo que esse propósito (exploração de mão de obra escrava) não mais exista. Mas por causa da homonímia em contextos raciais (você sabe, Zumbi dos Palmares) evito usar a "palavra Z". ;)  A teoria está longe de ser consenso, inclusive. Teóricos mais radicais, especialmente marxistas, afirmam que ainda existe um propósito, mas eu não vi esse propósito ainda :) 

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Escorpião, mas não sexy

Ou "Enquanto metafóricos gigantes invisíveis mas REAIS espalham a miséria pelo mundo, ainda há quem chute a carcaça de gigantes mortos"

Não gosto de tocar nesse assunto, mas ele irrita os deuses então acho que deveria voltar a ele periodicamente. Mas não foi por isso que voltei.

No fim de novembro de 2012, creio eu, um perspicaz e cético amigo meu me surpreendeu postando no meu feicibuqui um texto panfletário, vazio de conteúdo e mal-escrito por um terceiro sobre a diferença entre Astronomia e Astrologia. Por todas as patinhas de elefante de Hzioulquoigmnzhah, quem não sabe disso? Existe ainda alguém em pleno século XXI que confunde os dois? Ou que afirma que há base científica para Astrologia? Mas, mesmo intrigado com uma atitude assim vinda de alguém inteligente como esse amigo, não me preocupei muito. Sim, me intrigou, porque me pareceu algo como tentar provar que um professor universitário está errado a respeito de algo que ele sequer afirmou usando uma página de cartilha como prova cabal. Mas minha teoria sobre mecanismos de reação automática explica isso razoavelmente bem. Mas então esbarrei com um artigo de meados de Novembro desse ano de um site conhecido por um humor provocativo e politicamente incorreto (que ainda estou indeciso se odeio gostar dele ou gosto de odiá-lo) sobre cinco "superstições insanas" que ainda são levadas a sério por políticas públicas mundo afora. Ora, nenhuma das "superstições" me pareceu tão insana assim, mas não me surpreendeu dado o nível de imbecilidade humoristicamente intencional do site. O problema é que o grau de decepção que está começando a se tornar mais freqüente que considero sadio foi temperado com uma igualmente intrigante introdução quando o assunto era Astrologia. Pelas mesmas patinhas de Hzioulquoigmnzhah, seria coincidência?

Sim, o prato do dia é superstição. Gente, não é porque eu gosto de defender simpatias, benzeduras, crenças populares, cultos ancestrais e afins que eu considero isso ciência. Cientista é quem analisa essas crenças no âmbito das ciências humanas, não quem pratica. E quem pratica geralmente não quer também o título esnobe de Ciência. Acho que ninguém nunca afirmou o contrário, então ninguém precisa desmentir nada. Exceto por gente como a do Design Inteligente, que tenta empurrar religião pro campo da ciência (o que é, mais que errado ou absurdo, contraproducente) ou por gente como os Neoconfucionistas (que tentam conciliar tradição e modernidade, oque, a princípio, foi um aidéia louvável pelo motivo errado). Em todo caso, "superstições", não importa o quanto eu ache essa palavra inapropriada, são manifestações culturais, reforçadores de identidade. Não são métodos reais de divinação ou vaticínio. São válidos como sintomas de mentalidade e cultura de um dado extrato social. São representações de identidade e de reconhecimento seculares, senão milenares, que frequentemente ignoram contextos herméticos de suas origens e se tornam bem dinâmicos, se adaptando e evoluindo de acordo com as interações desse extrato consigo mesmo e com o meio. Exemplos de sabedoria expontânea e autóctone, que somente um cientistóide muito arrogante se recusaria a reconhecer-lhe a coerência. Resistência contra a massificação globalizada da cultura, da qual somos vítimas. Podem ser interessantes e apaixonantes, mas não significa que sejam efetivas fora de seus contextos. Como obras de ficção. Para um exemplo rápido na minha cultura, os filme "Os Outros" (com Nicole Kidman), que trata de fantasmas e assombrações, é um filme incrível que me levou à reflexões psicológicas e sociais incríveis e me serve de exemplo metafórico em dezenas de prelados. Mesmo eu não acreditando em fantasmas.

Vivemos nos últimos três ou nove séculos¹ (exceto pelo que eu considero a real Idade das Trevas, o século XIX :p ) um crescente prazer pelas coisas que são sinceramente irreais. Sonhamos, escrevemos ficção, lemos e baseamos nossas vidas nela, nesses pequenos e mágicos prazeres. Como identificação entre as subculturas, como aquela pequena tatuagem da Ouroboros te identifica como fã de Fullmetal para qualquer outro fã. Ninguém realmente se alinha como se estivesse no anime. Ou como quando você é atendido no banco por um funcionário que te reconhece como um Vampiro porque ele também é um. Ora, ninguém realmente suga sangue aqui, falamos sobre jogadores entusiásticos de um RPGs de mesa. Ou como pessoas, especialmente gaúchas, que usam a camiseta do seu time mesmo quando este acabou de perder o Grenal. Por mais que eu deteste futebol, preciso admitir que isso é um mecanismo de identificação. Ou, seguindo meu desafeto constante, sua identificação com seu país, sim, esse do qual você fala tão mal mas defende apaixonadamente. Você já teve a sensação de encontrar aleatoriamente um brasileiro no meio, sei lá, da China? Vivemos a virtualidade, onde realidade é representação, é subjetiva. Pessoas estudadas e esclarecidas são capazes de, momentaneamente, "trocar" a metodologia como uma pessoa que abre o mesmo arquivo de computador com dois programas diferentes. Um programa é o seu, que você usa para escrever sua visão de mundo. Outro é um WYSIWYG que roda seu objeto em seu contexto. Então, você o compreende de duas formas, como objeto E como realidade.

Assim, ainda em exemplo, me é divertido puxar assuntos astrológicos com as meninas (e alguns meninos também), mesmo que eu não acredite nisso. Pra falar a verdade, é mais divertido e revelador da personalidade do(a) interlocutor(a) apontar justamente onde a Astrologia erra. Ah, quanto rendeu um simples "sou Escorpião, mas não me acho nem sexy nem vingativa"! Por que raios eu me fecharia em copas quando o assunto é uma ex-protociência? Por que eu levantaria guarda e deixaria de participar do assunto só porque não acredito nele? Por que manteria uma defensiva diante de apenas MAIS UM dos muitos mecanismos ociosos de classificação ordenada da realidade entrópica? Tal comportamento, de repúdio, de aversão, me parece mais religioso que racional. Como religiosos que evitam falar no diabo. Como cristãos que não gostam de ouvir sobre Umbanda. Como seguidores de certas seitas diante de uma atitude pessimista. Isso só reforça a teoria das reações automáticas (que apresentarei melhor quando estiver pronta) de que o zelo "religioso" (ou melhor, o mais frequentemente associado à questões de fé e confissão) é na verdade uma função mental inata e ubíqua do ser humano. Em suma, pseudociência=serious business. Muitas pessoas, mesmo depois da ridícula derrocada positivista, ainda mantém o zelo e fervor religioso pelo que é verdadeira ciência. Falar de alguma "superstição" perto delas é blasfêmia. Anátema, opróbrio e vitupério! Elas não são capazes sequer de tolerar, quanto mais acreditar que alguém pode realmente ocupar a mente com isso. Isso não é ciência! Como alguém falaria sobre isso? Aí eu lembro que ninguém realmente pensa que isso é ciência.

Pois é justo essa preocupação contra inimigos inexistentes que me preocupou. Se você pegar um livro de psiquiatria ou de auto-ajuda do início dos anos 80 você vai ter a impressão de que o mundo inteiro (não só o mundo! Os EUA todos!) passaram duas décadas imersos em uma epidemia de auto-ódio e baixa auto-estima, enquanto qualquer pesquisa menos parcial apontaria justo o contrário, uma sociedade orgulhosa e arrogante, centrada na auto-realização (não é a toa que vários "gurus" oportunistas fizeram fortuna e miséria nessa época), uma geração yuppie, talvez uma resposta à contracultura das décadas anteriores. Como um escritor da época apontou, "essa psiquiatria [da auto-realização] arruina seu papel como ciência e está mais pra Astrologia que pra Astronomia". Tenho certeza que a Psiquiatria avançou muito desde então, e ela não deve se envergonhar disso mais do que a Medicina se envergonha da teoria dos humores corpóreos. Mas penso em quantas vidas foram destruidas por pensarem que não se amavam o suficiente enquanto talvez devessem na verdade se amar um pouco menos. Objetividade científica meus novos! Um posicionamento metodológico consistente teria parado essa barbárie. Podemos aceitar que era justo para época, mas não podemos repetir essa crassidão epistemológica.

Espero mais uma vez que eu esteja enganado. Espero que seja só uma coincidência. Espero que meu amigo tenha sido ofuscado pela minha rigorosa construção memética (aquela que me faz parecer idiota e espanta os P.I.M.B.A.s) e tenha me reputado por uma criança de primeira série, seguindo a metáfora da página de cartilha. E espero que a intenção da piada daquele site tenha sido a obviedade. Espero que o mundo não esteja em guerra contra moinhos. Espero que não seja como não seja como quando os franceses se amotinaram para tosquiar as prostitutas que davam para nazistas enquanto os verdadeiros "boches" minavam sua organização por dentro. Ainda estou amadurecendo uma teoria à respeito da difusão didática e memética de verdadeiros problemas introjetados de nossa sociedade ocidental, que é uma gota num oceano. Mas talvez, pela segunda vez na História da Humanidade, tenhamos o aparato intelectual necessário para tomar as rédeas de nossa mentalidade para construir a sociedade que queremos (ou algo um pouco menos oposto à ela). Não podemos falhar de novo, mas sim, vamos falhar se concentrarmos nossos esforços criativos contra inimigos inexistentes. Se nossos seres pensantes (que, como Einsten bem observou em carta aberta à Freud, são mais facilmente capturados pelas representações e construções da verdade por parte de quem controla as mídias²) não deixarem de lado posicionamentos políticos e filosóficos mofados e assumirem a responsabilidade de subverter o senso comum que os domina, bem, essa é uma causa perdida.

Mas sinceramente espero estar enganado.



¹Intencionalmente inacurado. Dita o tom da generalização que se segue.
²Einstein se referia à página impressa, mídia ubíqua entre os intelectuais da época. Portanto, a Inteligentsia tinha menos noção da realidade material e se deixaria levar mais fácil por sistemas idealizados. Carta aberta, parte de uma série promovida pela ONU de lucubrações com a temática "por que a guerra?" por ocasião de um aniversário do fim da Segunda Guerra, publicada no Correio da Unesco, não lembro o número.



quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Humanos fazem humanidade 3

 Ou "A sobrevivência dos mais mentirosos"

Tá, começamos com um exemplo bem Godwin: Imagina se Hitler, ao invés de seus carismáticos discursos, tivesse sido cortantemente sincero: "Olha, pessoal, eu não sei nada de economia nem de estratégia militar. O que eu sei é fui um soldado na primeira guerra e minha experiência me força a acreditar que um mito é verdade: o mito de que somos uma raça superior e podemos dominar o mundo mesmo sem planos. Assim, por talento natural. Diplomacia é pra fracos, os poucos acordo que fizermos, quebramos um pouco depois. Somos superiores, não é mesmo? Também não precisamos de intelectuais. Se somos superiores, pra que ficar pensando, questionando, escrevendo? Vamu pegar o mundo que o mundo é nosso! É no talento! Se o bixo pegar, matamos os judeus. Por que os judeus, você pergunta (na verdade nem todo mundo perguntaria). Porque morremos de inveja deles. Eles tem uma cultura relativamente diferente da nossa, um ascendência inconsistentemente diferente da nossa e uma religião que deu origem a nossa. Mas eles são diferentes, ora pombas! O cristianismo deu pra eles uma função que considerava indigna e eles acabaram por ter a sorte de participar na primeira fila do nascimento do capitalismo. Morro de inveja, então trato isso de maneira pejorativa. Todos nós europeus fazemos isso, aliás. Como a morte deles vai solucionar alguma coisa? Eu sei lá! Fato é que enquanto tivermos forças lutaremos. Se a lenda for verdadeira, venceremos. E se o bicho pegar, eu me mato." Sincero e esclarecido.
Mas ele não disse. Porque o preconceito, a mentira e a ignorância ɹ a única coisa que legitima (e, aos nossos olhos, invalida) o poder, esse ser inexistente mas real que, como diria Foucault, é mais um leque mal organizado de relações. Digo isso porque qualquer sistema que exponha consistentemente suas bases e permita-se ser questionado é válido e aceitável. Por que qualquer pessoa pode concordar ou não com suas bases, ou com a maioria delas, ou decidir quantas inconsistências e discordâncias pode tolerar, e optar por aderir ou não. Mas isso não dá certo, porque ninguém em sã consciência adotaria um modo que beneficiassse seu proponente em próprio detrimento. Logo, qualquer forma de poder precisa necessariamente apresentar-se como legítima antes de qualquer análise, e lançar mão de todas as estratégias possíveis e impossíveis para impedir essa análise.
Não penso em algo maquiavélico, é questão de "seleção natural". Se em algum momento algum projeto de poder foi sincero e esclarecido, bem, com certeza ele não vingou. Aquele que se valeu das paixões da turba, dos pontos cegos da consciência coletiva, da interpretação parcial que provavelmente permeava tanto o proponente quanto os "signatários", esse foi o projeto de poder vencedor. E seu exemplo foi sendo introjetado, aperfeiçoado, sofisticado através da história da humanidade a um ponto em que o grau de sutileza torna quase imperceptível a restrição à opção de aderir ou não.
O nascimento dos Estados é um exemplo sutil, mas visível e auto-expicativo pela falácia "não, um escocês de verdade". A sujeição do povo africano ao trabalho compulsório em escala desumana é um exemplo bastante óbvio hoje em dia. Ninguém aceitaria dar um tratamento diferenciado, quanto mais desumano, a um semelhante sem ser terrivelmente amoral. Logo, para justificar essa exploração, era necessário acreditar que não se tratava de um semelhante. O racismo em tempos neocolonialistas e o patriotismo, irmão gêmeo da xenofobia, nesse exato momento são ótimos exemplos de mecanismos de alienação da idéia de semelhante. Mas não se restringe a isso.
Talvez, dentre os diversos exemplos postos em ordem de patência, a forma mais bem acabada de projeto de poder mentiroso e turvo seja a democracia, pois pressupõe uma liberdade que não existe em ponto algum de sua história, mas por ter mecanismos de censura muito mais sutis é automaticamente aprovada pelos que acreditam na liberdade e isenta a priori de questionamentos. A democracia é grande devedora do absolutismo. Sem essa comparação honrosa, ninguém poderia acreditar que a ditadura da maioria seria liberdade. Sem esse trauma na memória de Clio, os homens teriam notado logo de cara que a diferença entre a democracia e o absolutismo é apenas de volume. O conteúdo, acabando com qualquer metáfora fisica, é o mesmo. Como assim? No absolutismo, crê-se que uma minoria tem o direito, ou a capacidade, de dirigir a maioria, se não para o bem comum, para uma suposta "condição justa". Na democracia, crê-se que a maioria escolhe uma minoria, um pouco maior e mais transitória, de seres com exatamente o mesmíssimo poder. Por isso, aliás, é tão importante a alternância entre os poderes para que a democracia-teoricamente-melhor-que-o-absolutismo funcione. Ora, não é isso que acontece na prática, com essa minoria lançando mão de todos os subterfúgios para manter a maioria na ignorância necessária para se manter no poder. Nem vamos entrar em uma situação hipotética onde uma maioria vota a favor do projeto de extermínio de uma minoria. ESSE expediente específico, como ótimo exemplo didático, não é mais praticável pois pressupõe uma ignorância muito maior, como você mesmo deve saber.
Um ponto positivo, ainda que insuficiente, é que ainda é permitido que as minorias se mobilizem e exerçam um poder maior que a soma de seus membros, isso é, tomando consciência das regras do jogo e negociando estrategicamente com essa minoria que ludibriou a maioria mas não é tola para irritar uma minoria mobilizada que bem pode destruir suas estruturas de manutenção da ignorância. O poder abre mão de uma parcela de tamanho negociável de seu enorme e não declarado "lucro" para não comprometer a existência desse mesmo lucro. Isso foi aprendido depois de séculos de presunção, e agora podemos nos valer desse expediente, longe de ser justo ou ideal (qualquer minoria pode se organizar) se quisermos corrigir as excrescências do sistema. Isso é válido e digno, mas devemos manter em mente que o poder não dará um tiro no pé conscientemente. Não podemos demandar que ele nos tire as vendas e mostre sua verdadeira natureza, nem mesmo uma parcela disso. Ninguém é "burro" ou nobre pra fazer isso. O que podemos fazer e instrumentalizar, é empoderar cada vez mais minorias para que exerçam o poder natural à mobiliação. E vamos negociar com esse tirano.
Para aqueles que não estão satisfeitos em negociar com esse tirano chamado democracia, bem, precisamos descobrir como enganá-lo, como dilapidar seu poder até que ele não seja mais necessário. Mas se você tem escrúpulos e não vai fazer isso, bem, voltamos ao início. O poder é "mau" e se vale da mentira para se manter. Nós somos "bons" e vamos vencê-lo com nossa virtude? Meu amigo, isso já é um mecanismo de alienação ^_^
Se vocês acreditam que é possível existir uma democracia de verdade, com o povo (demos) no poder (cratos), bora construir isso. Eu ainda não vi uma dessas.

¹ erro de concordância intencional.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

O mito de Arqa, parte 1

Ou mitologia ruza revisada e contemporaneamente corrigida


Hoje, os homens dominam uns aos outros, mas nem sempre foi assim.
A muito tempo atrás, quando o homem ainda era jovem, não haviam grandes impérios. As famílias se reuniam em grupos maiores, governados por um guerreiro bravo (que chamaremos de Rei) e um conselho dos mais velhos e sábios de cada família. No entanto, a Natureza resistia a essa nova espécie, e seus deuses não favoreciam seu desenvolvimento. Foi então que depois de muito observar a Natureza, os velhos sábios descobriram que deveriam haver humanos que crescessem perto o suficiente da Natureza para que esta pudesse dialogar com eles. Esses seriam o que chamamos hoje de Sacerdotes, o que vocês chamariam de cientistas. Eles não trabalhavam ou caçavam, mas desde sua mais tenra juventude se dedicavam a entender a Natureza.
Como humanos apenas conheciam a si mesmos e os conceitos que os definiam, logo criaram a idéia de Deuses, que seriam como os humanos mas presidiriam, encarnariam, enfim, SERIAM as forças da Natureza. Aparentemente, reproduzir-se era o grande domínio do homem. Sobreviver era sua meta, mas suas alianças e sua forma de organização se baseava grandemente nessa capacidade reprodutiva. O ser humano não era obcecado por sexo, sexo era o seu poder, e seus filhos, dados em casamento entre as tribos, eram a manifestação desse poder. O pai de muitos filhos em muitas tribos mandava em muita gente.
Em especial, onde hoje é a Eritréia, havia um "grande rei" chamado, em nossa língua de hoje, Saaltera (não sabemos como se pronunciavam os glifos dos antigos, logo os pronunciamos como seriam pronunciados hoje). Um rei sábio, mas ganancioso. Por força, mantinha o maior harém de concumbinas de então, vindas das tribos próximas e distantes, além de suas duas "rainhas". Essas concumbinas eram sua forma de manter "diplomacia" entre as tribos, daí sua grandeza.
Havia nessa grande tribo uma sacerdotiza que havia dedicado sua vida ao elemento Fogo, por crer que esse seria o elemento que transformaria pedras em armas poderosas para subjugar por violência as outras tribos. Fazia isso porque tinha muito apreço pelo rei, era sua favorita, também. No entanto, sacerdotes precisavam manter, nos costumes dessa tribo, total concentração na Natureza, logo esse amor seria errado e era mantido em sigilo. Vamlas Ras (novamente e daqui em diante, leitura anacrônica), como era chamado o Deus do Fogo, não parecia se importar com isso. Presidia sobre o Sol e sobre os vulcões, e em danças com seus irmãos rasgava o céu com relâmpagos. Não parecia ligar para a pequena raça humana. Seu irmão Meriq Yaa também não parecia se importar com os pobres mortais que dependiam tão miseravelmente de seu domínio, a Água, e presidia os mares, criava o frio sobre o céu para regar a Terra com seus rios e em dança com seus irmão regava a Terra com seu poder. Terra essa presidida pela silenciosa deusa Elsha Veth, que também parecia não ligar para os pés dos homens que parcamente se moviam sobre seu domínio. No entanto, Arqa Anh, a deusa dos Ventos, se importava com a humanidade. Em dança com seus irmão, corrigia suas fúrias, distribuindo o calor e o frio, aplacando o ardor do Sol, espalhando a Água sobre a Terra e movendo a Dunas.
Desde os primeiros passos, ela via nesses pequenos seres curiosos a capacidade de criar de inventar, e acabou se apaixonando por eles. Uma ávida entusiasta da criação, logo se afeiçoou às mulheres, nas quais via aspectos de si e de seus irmão, pois com água, calor, minerais e liberdade davam origem a outros de suas espécies. Arqa se tornou próxima das mulheres da Terra, compartilhando sua natureza em suas camas à noite. Munidas dessa natureza, elas exerciam o poder que tinham, como grandes mães e desejáveis donzelas, tanto que depois de algum tempo não haviam mais sacerdotes ou anciãos homens, apenas as mulheres, pois demonstravam maior compreensão da Natureza de forma instintiva. Os homens se dedicavam a serviços mais pesados, visto que não possuiam úteros para danificar, logo embruteciam-se para tal compreensão. Entendiam a Morte, apenas, essa força da Natureza que fazia com que os animais e frutos da Terra os mantivessem vivos. Mas não entendiam a dança entre a Elsha e Meriq, que faziam as margens dos rios férteis, ou a dança de Vamlas e Arqa, que mudavam as Estações. Não entendiam porque a dança de Vamlas e Elsha criava uma substância aparentemente nova, muito mais resistente que madeira ou osso. Não entendiam porque Vamlas deixava seu irmão Meriq maior mas mais intangível, a ponto de abandonar para trás suas muitas riquezas em um fino lençol branco. No entanto, aos poucos essas mulheres levariam sua sociedade, não machista ou estratificada, mas integrada, a uma conquista questionável. Não mais dialogariam com os deuses, mas os obrigariam a favorecer seus desejos. Dominariam o Fogo, a Água , a Terra e assim dominariam toda a Natureza. Exceto Arqa.
Voltando ao tempo do reinado de Saaltera, Arqa se enamorou de uma de suas concunbinas, tão linda e tão perfeita que Arqa perdia-se por horas em seu colo, desbravando seus cabelos como a mata, acariciando seu corpo como ao ébano, movendo-a como a dança dos deuses. Descobrindo isso, Saaltera se enfureceu, de uma fúria vã que não tinha sido vista ainda. E matou a amada de Arqa, sua concumbina, gerando forte desconforto com a tribo da falecida e despertando em Arqa um desejo de vingança.
Ora, os deuses não presidiam sobre a vida e a morte. Tinha sua natureza, e a seguiam o tempo todo. Vamlas não podia deixar de agir com ímpeto, consumindo tudo quanto encontrasse e só recuando quando não mais havia o que consumir. Meriq se ajustaria a qualquer situação, exceto quando, frio, poderia ser tão impassível como uma rocha. Elsha era paciente e generosa, uma verdadeira hospitaleira, mas sabia mover-se em fúria. Arqa, que amava a liberadde acima de tudo, fez o que sabia em sua vingança: aproximou-se das rainhas de Saaltera, e as inspirou com a divina sabedoria, e as fez irrascíveis ao comando do rei, o que o enfureceu. Por isso, o rei matou ambas, com grande tristeza. Arqa então seduziu suas filhas com o mesmo conhecimento, tornando-as insubmissas a seu pai. Saaltera agiu da mesma forma, com maior tristeza ainda. Arqa, então, sabendo do grande amor de Saaltera pela sacerdotiza de seu irmão Vamlas, também a possui, compartilhando com ela igualmente sua natureza. No entanto, a afeição entre esta e Saaltera era tanta que ambos chegaram diante de Vamlas Ras e suplicaram por sua clemência, que parasse os caminhos de sua irmã. Prometeu que faria guerra a todos os homens, consumindo-os como fogo. Prometeu que fertiliaria Elsha com o sangue dos derrotados e enriqueceria Meriq com seus espólios. Grande traição, era o que o rei propunha. Consultando seus dois irmãos, Vamlas não parecia muito inclinado à suplica daquele serzinho tão pretensioso. No entanto, possuidora agora da saberia divina, a sacerdotiza entende que, mais cedo ou mais tarde, a religião evoluiria de diálogo para domínio. Que os homens inevitavelmente dominariam o Fogo, a Água e a Terra. Criariam e extinguiriam grandes incêndios ao seu bel prazer, mudariam os cursos das águas para seu próprio bem e sugariam as entranhas da Terra para seu proveito. Criariam e extinguiriam a Energia, moveriam-se com velocidade sobre os cantos do mundo e dominariam a vida desde seu brotar até a procrastinação de seu fim. O homem, esse serzinho arrogante, acabariam por subjugar a Natureza. E a mera menção das capacidades reprodutivas exponenciais desses seres potencialmente dominadores amedrontou até aos poderosíssimos deuses. Saaltera se comprometeu a ser, ele, como o primeiro imperialista/absolutista, "ser para os homens o que os deuses eram para ele". Assim, o domínio da Natureza ficaria na mão de uns poucos, que fariam mistérios e intrigas para alienar os homens comuns que se reproduziam sobre a terra. Para seu próprio bem, os deuses concordaram. Mas havia Arqa. Arqa cujo domínio era o não-domínio, cujo elemento era o vazio e o poder era o movimento. Que amava a liberdade, e movía-se invisível amando todas as coisas que existem. Que nunca poderia ser subjugada pelo homem. Ela não aceitaria tal embuste. Ela não coadunaria com tal mentira. E ela tinha o ódio de Saaltera, que agora também tinha conseguido para ela a antipatia de seus irmãos. Foi assim que Vamlas, Meriq e Elsha planejaram emboscar sua irmã e submetê-la ao mais cruel tratamento conhecido naquela época.

(continua)

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Por onde anda Pan-Ku

Ou "Por onde anda Pan-Ku"

Bem, eu estou perguntando porque não sei. Poderia perguntar aos ex-colegas de quarto dele, Yin e Yang (não os coelhinhos, plz).

Como vocês estão carecas de não saber, os hexagramas 1 e 2 do I-Ching dão conta das mutações totalmente Yin ou totalmente Yang. Alguém as chamaria de perfeitas, mas quem conhece as mutações sabe que tanto Yin quanto Yang tem seu lugar, logo qualquer coisa totalmente Yin ou totalmente Yang não terá um final feliz. O hexagrama 1 que usa a metáfora "a ascenção do dragão" para ilustrar o caminho do sábio que vai sempre em frente (mesmo quando não é propício) em busca da sabedoria, por exemplo, (prepare-se para os spoilers) tem um final agridoce, com o dragão perdido pelos céus. Um dragão que venceu duas camades de terra, duas de homem e uma de céu, não tem mais o que atravessar. O sábio chegou ao limite de sua capacidade inquiridora experimental e, embora vencedor, experimenta o vazio e a solidão de permanecer Yang num lugar que deveria ser Yin. Isso não aconteceria, é claro, se Yang ainda estivesse no ovo, mas os barcos não foram feitos para a segurança dos estaleiros, e sim para os perigos do mar. Yang, à luz que uso hoje, não é exatamente uma força ativa, criadora, e sim um força ousada, inovadora e arriscada. Em teoria, é claro, porque Yang foi separado do Yin a golpe de machado.

Diferentemente, o hexagrama 2 é totalmente Yin, e peca pelos mesmos motivos. Enquanto o dragão é um ser do ar, que usará a terra para recuperar energias, o Qilin é um ser da terra, está conformado a seguir o melhor caminho sobre a terra, mesmo que guiada pelos céus. As feministas mais afoitas vão gritar, por que o superpoder do Yin é "conformar-se e obedecer". É óbvio que a China do meu amigo Wang Fu Zhi¹ é patriarcal e, para nossa visão, machista (os pézinhos amarrados vieram um pouco depois, então vamos ser um pouquinho menos severos com o chinas). Numa época onde a guerra ainda era glorificada (bem diferente de hoje, não é?), a sabedoria estratégica era vista como auxiliar e receptiva, oblíqua, ladina, em oposição a simples coragem. Uma vez que o livro é de MUTAÇÕES, o que se chama princípio feminino não é de maneira nenhuma restrito ou reservado às mulheres. Sabe qual o epíteto do segundo trigrama, totalmente Yin? O caminho do homem de bem. Óbvio, homem é genérico para indivíduo (se não era agora é), mostrando que caráter é permanecer firme como a terra no caminho que o sábio sofreu para descobrir. Na verdade, o NOSSO conceito de sabedoria é muito mais Yin que Yang. Na pratica, é claro, porque Yin foi separado do Yang a golpe de machado.

Pois, as lucubrações menos alucinógenas se referem ao caminho do cavalo (ou, já que Yin é feminino, da égua) SOBRE a terra. Coisa horizontal, o homem de bem sabe ceder em nome do bem maior. Sabe se relacionar em uma vacuosfera que Foulcault não seria capaz de imaginar. Talvez em última análise, Yang é a força dos relacionamentos verticais, inquiridores, dos assassinos, criadores e companheiros de buteco dos deuses e dos demônios. Também dos caras que admitem que é muito provável que, ao contrário do que todos pensam, a Terra não seja o centro do Universo ou a Relatividade não seja bem assim na prática. Yin seria a força horizontal que nos ensina a viver em sociedade. Como o sábio chinês que busca a meditação da montanha quando um tolo governa, ou como o poeta que ainda diz "pôr do sol" ou daquele nerd chato cujos olhos brilham quando ele te explica os meandros da Física Quântica. Não tenho certeza se a mediocridade das religiões que giram em torno de si ou a sandice das ciências que menosprezam suas origens tem algo de Yin, mas, se tem algo de Yang, é num traço nefasto :p Nesse exato momento, os tolos fazem ciência, os tolos fazem religião, então quero subir duas montanhas ao mesmo tempo. Fato é que nem as ciências nem as religiões parecem capazes de dizer onde raios se enfiou Panku.

Pois é, se você não é panteísta, você não tem o direito de chamar Panku de deus. Bom, muitos o chamam de "Adão chinês", naquela mesma bizonha² tentativa sincrética que chama o Qilin de "unicórnio chinês". Você já viu um Qirin? Ele mais parece um dragão (bem, tecnicamente ele é um) mas tem cascos de cavalo e DOIS chifres (por que UNIcórnio, então?) parecidos com os do veado. Mas unicórnios são criaturas fabulosas (em todos os sentidos), podem parecer um cabrito chato quando crianças (mééééééééé!!!) e um enorme corcel teletransportante quando adultos. Um unicórnio até ser rosa e invisível ao mesmo tempo, e ser chamado de deus pelos ateus³! Mitos teogônicos são mais complexos. As pessoas se esquecem de seus significados morais e simplesmente rebaixam-nos a contos de fadas, afirmando tão-somente que é impossível. Talvez Deus tenha criado os poetas justamente para dar significado às coisas que não precisam existir para ter um.

Mitos teogônicos em geral são fracos para manter o poder, deve ser por isso, né, Foucault? Salvo por genealogias, mas mesmo assim é mais fácil você ser aclamado filho de Zeus ou de Apolo, ou de qualquer outro desses tarados. Você sabe, divindades menores, mais semelhantes a nós, são infinitamente mais populares. Personificações antropomórficas de forças primordiais de Natureza, essas que você vê na rua, não vendem epopéias. Até a Bíblia nos aconselha a não nos perdermos em divagações sobre os rudimentos do mundo. Logo, Panku foi relegado a uma ambígua nota de rodapé, irônico, porque a culpa é toda dele. O mesmo pode ser dito de Chaos.

É mesmo, onde anda Chaos nesse momento?





¹ Wang Fu Zhi foi o comentarista que elevou o I-Ching à categoria de filosofia. A época dele? Não me lembro, vai catar a Wikipédia, vai?
² Bizonho = Bizarro+Bisonho. It wasn't a typo, y'know ;)
³ Fato.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Adagio 142

Contrariando minha tendência de escrever muito e bem de acordo com o cliché dos blogs de quem escrevem muito e volta e meia postam algo terrivelmente lacônico, hoje ficaremos apenas com um pensamento:

"Feiticeiro é aquele que
mendiga a uma Natureza rica
e explora o homem pobre.

Cientista é aquele que
explora uma Natureza pobre
e mendiga ao homem rico."

Pois é, máxima epistemológica e meta anarcogônica desse mês, galera! Bora viver!

terça-feira, 29 de maio de 2012

O órgão sem nome

Ou "Caminho e meio à solidão"

Tá, começo de cara com uma metáfora sexual: suponha que você acordou um belo dia e descobriu que tinha um órgão novo. E você descobre, explorando-o, seu potencial erógeno. Ora, você espera que seu/sua parceiro/a dê a mesma "importância" para este órgão que já dá para os outros, não é mesmo? Só que, você sabe, você é uma aberração, e aos olhos do seu/sua parceiro/a, isso é algo que não vinha no pacote. Algumas pessoas são muito travadas nessa hora, com seus cérebros, cicatrizados pela pornografia estatizada, tanto que perdem a chance de explorar algo novo naquela mesma pessoa. Não interessa o novo para eles. Eles te "compraram" de um jeito por que você era daquele jeito, e ai de você se mudar!

OK, essa hora sua ex-cara metade já deve ter cruzado a fronteira com o Uruguay, correndo em pavor. Qual o próximo passo? Bem, eu procuraria outras pessoas que desenvolveram o mesmo órgão, ou pelo menos algum outro órgão novo, se não para relacionamento de casual a sério, para compartilhar essa experiência inédita.

Mas, entenda, você não está em Hogwarts ou Nárnia, ou Pandora ou qualquer outro reino fantástico. Você está nesse mundo mesmo, onde pessoas ainda são tidas por doentes por se sentirem atraídas pelo por pessoas do mesmo sexo, ou elos dois, ou por nenhum. É um assunto delicado, e você não sai mostrando seu novo eu por aí dizendo "quem tem um igual?", até porque existe uma baixa probabilidade dessa pessoa querer se expor.

Antes que a indústria pornográfica te transforme numa daquelas bestialidades adoradas por perversos, você vai enfrentar aquela solidão de não ter certeza se você é realmente único, uma exceção, ou se há, para além das rígidas e feias paredes da normatividade, alguém como você, ou pelo menos alguém que te curta do jeito que você é. Não daquela maneira massificada e pré-determinada que se faz desde antes da pré-história, mas de um jeito cúmplice, amigo, único, não só do jeito que você gostaria, mas do jeito que você precisa.

Este somos nós, e você continua dizendo que não somos diferentes.

É claro, o órgão é uma metáfora, é mais uma coisa mental, e o sexo também, a coisa toda inclui mas não se limita a relacionamentos. E sabemos que todos os sentimentos hoje são pasteurizados, embalados em tetrapak e vendidos de volta para você como se você não fosse capaz de desenvolvê-los sozinho. Mas, para alguns de nós, há sentimentos sem precedente, sem jurisprudência, sem modo de preparo e sem dica de quantos segundos deixar no micro.

Num primeiro momento da humanidade, nós seríamos quase normais, pois essa natureza seria só mais uma coisa a descobrir. Depois, dependendo de como as relações de poder se desenvolvessem, seríamos deuses ou demônios. Depois, dependendo de novo das relações de poder, seríamos negados ou catalogados como bizarro desvio da natureza. Por fim, seríamos reunidos no gueto, e com o passar do tempo nos organizaríamos e usaríamos da mesma selvageria que usam contra nós. Enfim, seríamos absorvidos e integrados, e uma significativa parte da indústria lucraria rios com nossas necessidades únicas. Seríamos, seríamos, seríamos.

Mas não fomos. Não tivemos esse direito, e não temos certeza se sentimos falta. Nascemos ontem, e não inventamos mitos para nos justificar. Não queremos roubar seu lugar no topo dessa pirâmide que só você vê. Só temos um órgão a mais para pensar, ou sentir, ou fazer, provavelmente às custas de nos tornarmos incapazes de fazer certas outras coisas que aparentemente TODOS os outros são capazes de fazer. Vê? Nem sequer nos vemos como melhores! Seria uma boa hora para você se permitir essa descoberta, de que há coisas essencialmente diferentes de você mas que, no fundo, são iguais.

Bem, já me perdi do assunto.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

A Quinta Cabeça da Quimera

Ou "Sobre o valor sociológico do ruído na comunicação indireta de uma sociedade impossível"

Devo a um amigo meu o conceito de "ruído". Vocês devem conhecer ele, ele é um rapaz inteligente e mais ou menos realista que, embora discordemos muito em alguns assuntos e eu sinceramente ache o approach dele ao léxico pouquíssimo ortodoxo, respeito muito sua opinião. 
Ruído, aquela imperfeição que prejudica a transmissão de uma imagem ou som. Pra citar o pai dos burros: para a Eletrônica, "em um circuito", ruido são "correntes ou tensões indesejáveis, usualmente não muito intensas, resultantes de causas incontroláveis, como, p. ex., movimento aleatório de elétrons num condutor, emissão ao acaso do catodo de uma válvula, etc". Ou ainda, em Computação ruído é "toda fonte de erro, distúrbio ou deformação de fidelidade na transmissão de uma mensagem visual, escrita, sonora, etc.; sinal indesejável que não pertence à mensagem intencionalmente transmitida". Não difere muito da física, em especial da preconceituosa Ondulatória Musical, que considera nota o som ordenado e ruído o som de amplitude e freqüência aleatórios.
Da mesma forma que o termo "oxyMORON" surgiu como uma ofensa em um fórum de Internet e foi adotado (ou pelo menos deveria ser) pela comunidade, agora proponho que a admoestação de meu colega a respeito da falta de clareza, inteligibilidade ou mesmo eloqüência do meu pensamento nos sirva para conceituar mais uma daquelas coisas que nós conhecemos bem mas não falamos sobre elas porque não temos palavra melhor que "coisa" em língua humana para referí-las.
Uma de nossas características mais marcantes é a forma como conseguimos responder uma pergunta NÃO a respondendo. Não conseguimos evitar, nossa lógica é outra. E seria interessante ter um conceito bem definido, especialmente para aqueles entre nós que ainda acreditam na lenda de um mundo onde uma pessoa é julgada não pelo tamanho de seu exceptis excipiendis, mas pela qualidade de seu caráter.

Pois é, meus caros.

Há uma pequena "parábola".... Escrevo isso rindo. Assim como a peça "Il primo miracolo", que é obviamente uma sátira muito menos inspirada que as de Monty Python, foi recebida em minha cidade com auras de sagrada e reveladora XD da mesma forma vos apresento agora uma adaptação feita por mim mesmo de uma antiga anedota como se fosse uma fonte fidedigna de saber acadêmico XD 
"A quimera retirou seu disfarce diante deles até a cintura, como quem começa e despir-se de um macacão suspiciosamente justo, ficando como um homem de cintura ara baixo. 'Você não afirmou ter cinco cabeças?', perguntou o observador mais perspicaz. Realmente, uma cabeça de dragão projetava-se de sua coluna, mais abaixo uma de tigre, e, quase como que servindo de ombros às robustas patas dianteira munidas de grandes garras, uma cabeça de unicórnio de um lado e uma proporcionalmente grande de uma ave de rapina do outro. 'Para mostrar minha quinta cabeça', respondeu a quimera, 'eu precisaria tirar as calças'. Não seria necessário a aguçada audição de seus oito ouvidos para que a quimera percebesse os risinhos, uma comoção infantil, uma malícia. 'Minha cauda é uma cobra', continuou, 'minha quinta cabeça é uma cabeça de cobra, na onda de minha cauda. Seus maliciosos! Até porque eu sou uma fêmea!'"
OK. 

Você ainda está aqui?

Essa mensagem é uma espécie de parábola dirigida aos oxímoros, com uma singela mensagem alertando os jovens de dois perigos de manter contato com humanos. Poderia ter sido compilada em forma de um adágio, um aforismo até, e seria mais concisa e direta, talvez até mais memética. Mas, assim, perderia seu motivo de existir.

Começa-se pela seleção do leitor. Sim, não é o leitor que escolhe o texto, mas o texto que elege por quem pode e por quem não deveria ser lido. E com o ruído tentamos, inconscientemente, manipular isso. Vendo se tratar de quimeras (aqueles que reconhecerem o significado mitológico genérico da palavra), e omitindo uma série de informações que não fazem parte do senso comum (disfarce? Quem assistiu MIB e pensou na barata gigante vestindo o Edgar pensou certo) e outros realmente relevantes (porquê ela se despe? Para quem? Onde? Quando? Por quê?), além de umas que só o autor sentiu falta (a primeira coisa a ser revelada foram suas enormes asas, e isso e a reação a isso são omitidos), um bom número de classes socio-intelectuais perde rapidamente o interesse. Os mais curiosos que chegarem até o final se sentirão ou traídos pelo humor de toilet extremamente sem graça e pela falta de um desfecho. Tachar-lo-ão, injustamente, de absurdista. Uma outra parcela procurará significado nas cabeças. A quimera lembra muito os querubins e outras bestas bíblicas, essa relação pode despertar curiosidade simbólica. No entanto, pouco pode-se depreender desse enfoque (escolhi com carinho as cabeças para que alguém versado na astronomia chinesa rapidamente visse um ocidentalização das Bestas Celestiais, o que pouco tem a ver com a moral da história. Viu? Ruído).

A quimera, no entanto, não foi escolhida ao acaso. Todo oxímoro se sente meio quimera, pois como os europeus esquartejaram a África com suas linhas retas sobre o mapa, as sociedades seccionam arbitrariamente o todo (o caos) e atribui relações de oposição (a ordem) que negam mesmo a existência do oxímoro (aliás, o próprio termo conota isso). Isso lembra, não à toa, a teoria do "Roscharsch original" de Malaclipse o jovem. porém, posso dar-lhes uma dica de leitura: não faria diferença alguma se as cinco cabeças fossem de arenques vermelhos.
Mais diretamente, a parabola admoesta sobre duas tendências terríveis que o ser humano tem. A primeira é de olhar para o parcial e tentar ver o total. Se por um lado isso estimula a desejada curiosidade científica, por outro continua a ser um enfoque errôneo e chega a ofender. É óbvio, relações humanas precisam do tato, mas se a quimera tivesse virado as costas e não respondido o observador, em pouco tempo (ou assim pensa o oxímoro) se espalharia o boato que a quimera tem apenas quatro cabeças. Muitos oxímoros recebem rótulos não exatamente injustos, mas bastante parciais, com base em conceitos de emergência, para não dizer preconceitos, que surgem da singularidade da situação. Se a besta estava disfaçada, pressuõe-se que não era Haloween: havia uma tensão social, e uma tensão mal resolvida.
A segunda, tipificada pela malícia, é a tendência que o humano tem de olhar para os outros e ver a si mesmo. O gracejo (que, não a toa, ajuda a fixar o conceito) a respeito da "cabeça do pênis" pressuõe que a sociedade da quimera seja tão falocêntrica quanto a sua. O que ofende de modo moderado a besta. Para o oxímoro, que provavelmente vê conexões que a turba consideraria paranóia (exceto quando não as vê), esse desconforto, hoje tão pouco cômico mas ainda bastante didático, remete a lembrança de uma série de normatividades que lhe foram impostas e que, se não foram dolorosas e ofensivas, foram desconfortáveis e humilhantes para serem esquecidas.

Viu? Não há nada de esotérico, é tudo muito simples. Tem cara de esteganografia, fala de si como se fosse criptografia, mas não passa de trivial para o emissor e para o receptor. É claro, um adágio ou um aforismo correriam Twitter afora com muito mais desenvoltura, mas não tocaria no coração desse ser tão próximo de cada um de vocês, nem o faria rir sozinho quando mais uma conexão é feita. O ruído é, para nós, a moldura que protege mas não ofusca a imagem, exceto para aqueles que acreditam que a imagem é distorcida demais para não atribuir isso à imperfeição do vidro. Ruído, porém, é nossa roupa. Sem ele, estamos expostos. Sua sociedade convive melhor com a mentira da roupa que com a verdade da nudez. Conviva melhor com a loucura de nossa magia, já que é bem difícil para nós conviver com a lógica de seu niilismo.




Sem notas de rodapé hj. Eram muitas e estou sem saco.

terça-feira, 13 de março de 2012

A Resolução

Ou "Use o poder que te é dado para se portar e agir como homem."

Tá bom, um post sobre música? Sim e não. Hoje vamos comentar sobre uma das inspirações da Sacra Cabala de Chaos e Panku. A lisérgica letra que Kurt Elling pôs sobre a mais lisérgica ainda composição de John Coltrane, "Resolution".



Kurt Elling

Cantor americano de jazz, conhecido por cantar E TAMBÉM tocar esse complexo porém infinitamente flexível instrumento conhecido como VOZ. Sou fã de Kurt Elling desde sempre. E sempre significa desde o princípio dos tempos, que era quando Roberto Przbylsk (como se escreve isso?) com seu indiscutível bom gosto e sua invejável discografia apresentava o programa "Caminhos do Jazz" na Rádio Universitária da FURG (dizem que hj ela voltou a ser escutável como naquela época, mas o estrago já está feito). Naquela noite, Roberto tocou o clássico Close Your Eyes e uma versão cantada-mas-sem-letra de Eye of Hurricane do Herbie Hancock. Amor a primeira vista.

Resolution saiu no CD "Man in the Air" (Blue Note, 2003), longe de ser seu melhor CD, mas, como a Blue Note não lança CDs ruins, conta com pelo menos 3 pérolas: Uma letra para a desesperadamente linda "Minuano (Six Eight)" do Pat Metheny (mas sem o ar gauchesco), uma música para o poema "The Uncertainty of the Poet" de Wendy Cope e, adivinhem a terceira.

Lembro que a crítica de um cara (que não direi que era Dan McClenaghan) em um site (que não direi que era o AllAboutJazz.com) não poupa elogios para o disco, embora tenha viajado um pouco na filosofice humanista ao comparar o jargão "a good set of pipes" com a voz de barítono quase metálica de Kurt (não mais do que nós faríamos). Mas o cara tb critica "The Uncertainty of the Poet", tipo "é o único ponto fraco do album. Com letras (...) como 'I am a poet, I am very fond of bananas'", reclamando que distoava do clima sério do disco. Poha, eu que sou brasileiro conheço Wendy Cope e adoro o que considero ser um dos poemas mais inteligentes escritos na pobre língua inglesa! E o arranjo a capela abusando de overdub ficou simplesmente genial! Qualquer imbecil pega uma melodia simplesmente perfeita como "Minuano" e põe letras românticas dúbias e sem sentido para rimar Katmandu com Timbuktu (é claro, Kurt não é um imbecil), mas é preciso um gênio para musicar um poema sem métrica que recombina a exaustão meia dúzia de palavras. Isso não é arte, Lula-molusco não aprova!

Mas, como já se vão quase 10 anos, poupemo-nos de reminescências e vamos à resolução.

Resolution

São João Coltrane, divino e alucinógeno, gravou essa música como a relativamente bem comportada faixa dois do perfeitísimo "A Love Supreme", inclusive com o piano insandescido de McCoy Tyner. Digo relativamente bem comportada pq não foi à toa que ninguém ousou pôr letras, por exemplo, em "Acknpwledgement". O disco é um divisor de águas do free jazz entre o que se pode ouvir com e sem LSD.
Mas não pense em encontrar um slowblu. Resolution é uma pedreira, fico imaginando como o trio que o acompanhava deu vida a esse ser vivo travestido de música. Mas a coragem de Kurt Elling foi tão grande que ele pôs letras NOS IMPROVISOS do Trane também! Óbvio, o pianista de Kurt, seu "inseparável" Laurence Hobgood, não é McCoy Tyner, mas segura a barra. Aí é que está, claro leitor. Kurt tirou essa canção do escopo das mentes divinas e trouxe a um conexto inteligível por meros mortais. A música, pelo menos.

Isso é mais blatante na versão que o próprio Kurt canta no disco "Old School: New Lessons" da big band do Bob Mintzer. Como nome do disco deixa claro, e o próprio conceito de big band sugere (há um motivo pelo qual os epígonos de Gil Evans, como a divina Maria Schneider, usam a expressão Jazz Orchestra), não estamos diante de uma mudança de paradigmas. Embora Kurt cante como o fez com seu trio (exceto por diferenças que o aproximam mais de Coltrane) ele soa como um crooner. É uma versão muito mais pasteurizada e adocicada. Mas não importa quanta calda você ponha, isso ainda é Resolution.

Eu, particularmente desejei que queria acordar todos os dias com essa música, versão "A Love Supreme", mesmo. Os deuses atenderam meu pedido inventando o despertador Mp3 que às vezes serve de telefone.

Resolution, agora com letra!

Bem, vamos ao sacrifício:

Resolution

Music/Solo by John Coltrane
Lyric by Kurt Elling
From John Coltrane 1965 recording A Love Supreme

God, king above all other gods
Lead us now, so we can walk wherein the prophets said that we would trod.
Buddha, tell a sutra like a spell
Teach us well to answer silence with the calling of bells.
Allah, bring us to a good alarm
Subjugate our wills to answer you like a mighty arm.

Elohim is a pillar of light in the dark and leading all his people to light (for He's the king of the fire).
He brings the fire into everything that's living on earth, in the sun, in the stars.
Take a spark of it, deep within you, put it to the test, it will do the rest, I confess, It will be like climbing up Mount Everest, I can't express the view from there, but it's for you to follow through.

Lama, show the Power's bright array
Bless the climb, and settle peace upon the universe's dark display.
And Jesus, remember every promise made
Present yourself in the middle of the prayers that we say.
Vishnu, preserve us all along the way
Keep us clear of the final thunderbolt of the judgement day.
Hear me, Hear what I, what I ask for today, Fathers.

(piano solo)

Way off at the far leftern shelf of the world
Up in a house right on the edge of everything
Where the time is tumbling in a vortex
The nexus of timetable tides

In the final lighthouse at shining earth's ending
At the spinning of the finishing of sweeping time

Driving silence like a stampeding careening wash in charging advance
Digging the sound of passing everything away into the secret of eternity's pivot dance

Breaking down crashing doorways
Bashing through dreamplace
Smash, unlash, efface
Everything goes to the open mouth of Kali-ma
Where the vault of heaven opens

A witness as lonely as forgotten tears keeps up a vigil watching all
Even light, go out
One witness, one child digging the slaving wheel of meat
Spitting out, taking up, everything, by the roots
Pulling out, the lot of what has passed into the past, like a dream.

She knows what is gone, gone over, everyone that is done
And unbegun and starting from the super-microcosmic no bug all the way to super-huge galactic suns
And she knows the beginning, is coming in the sweep at the end of all.

Even gods have passed over, away.
Then, one day the shadow of a priest on the horizon appeared.
He wasn't taken up into the swirling.
He walked with purpose, all the while digging his heels into the bedrock like a man.
But as he came into view the witness saw
His eyes were crying.
Tears like blood fell to earth,
As he watched heaven disappear in the void,
Up the drain into the paraboloid.

Realizing it all, everything, everywhere, into his eyes,
Seeing that all, he had beloved, went out of itself and away,
Here in this last ever surge of a day
Tearing all meaning away,
And to the witness's indifference he had this to say:

"I know about birth.
I know about death,
And how the light goes out of men,
The life departing, powerless, giving it up,
But in the vast indifference I invent a deeper meaning.
I'm the one who will say 'use the will every day or go mad trying,
Go to war against the impotent side of living.

Use every power you're given to stand and act like a man'.

And pray, every day to every god,
Strike the bowl of heaven and the ringing will become a law.
Build, bridges where you need to go,
Bring the fire of enlightenment here to life below.
Speak, mercy to the things you meet,
Listen up to hear the whispering of the blood you bleed.

Stay awake, no mistake, dance the dream awake, and awake."


Se você entende o significado profundo dessa letra, você não precisa da nossa Cabala. Se vc não entende, nós não podemos te ajudar, a não ser pedir que sente e nos faça companhia. Se vc não entende inglês, use os comentários e eu traduzo pra vc ;) 

Mas uma dica de interpretação: preste atenção que, se vc tiver qualquer atitude incompatível com a nossa crença, antes do solo do piano você já vai ter ido embora.

Duas na verdade: Perceba como, se tudo que existe, do micróbio aos sóis galáticos, foram drenados pelo vórtice, por que a testemunha não foi? Porque ainda há um horizonte? E DE ONDE RAIOS SAIU AQUELE PADRE? E que chão é esse que ele mancha com lágrimas de sangue? Chorou pela inexistência do paraíso que depois você deve atacar com suas preces. E as coisas às quais devemos falar de misericórdia? Novamente há céu e deuses, e onde construir pontes. Mesmo depois do fim de tudo.

"Na vasta indiferença eu inventei um significado mais profundo. Serei aquele que dirá: Use sua força de vontade todo dia ou enlouqueça tentando. Vá a guerra contra o lado impotente da vida."

Não é koan de sorvete. É a realidade.