Ou "E das diatomáceas da lagoa, a esfarrapada desculpa se esbroa"
Pois é, vocês podem estar sentindo falta das postagens do seu Sumo-Sacerdote Aleatório favorito. Cara, já faz muito tempo desde meu último prakiti, e não creio que tenha sido dos mais relevantes, embora certamente inspirador. Ou não faz tanto tempo assim. Depende da perspectiva.Certamente tempo quântico se passou. Tempo biológico, nem se fala, não ficamos mais jovens desde minha última postagem. Mas e tempo psicológico? OK, somente um Sumo-Sacerdote Aleatório do balacobaco seria capaz de transformar um bloqueio criativo em um texto aprazível, e não tenho contado tanto assim com minha balacobacosidade. No entanto, não sei se é coisa da greve na Universidade que estudo (a qual, sem menor dúvida f*deu os relógios biológicos da grande maioria dos envolvidos e, pior, sem nenhuma conquista), não sei se é uma ímpar condição neurológica, psicológica ou neuropsicológica, não sei se realmente minha fé em toda nossa existência está tendo um momento DR, mas do meu ponto de vista, muito pouco tempo se passou desde nosso último encontro.
É óbvio que não existo para lhes trazer incertezas, muito pelo contrário, existo para embaralhar, etiquetar e pôr cada uma das incertezas que vocês JÁ têm na prateleira menos apropriada, mas mais conveniente. Ou o contrário. Por essa mesmíssima razão, não teria começado esse texto se não tivesse uma teorização psico-socio-metafisico-cultural a respeito de tal assincronia. É claro que tenho! E não estou enrolando para encher texto! Posso ver vocês tremendo com a antecipação! :p
Sentia-me espiritualmente atordoado, criativamente castrado, rocambolisticamente f*dido. Quero dizer, foi um tempo legal, muitas coisas legais (que não posso compartilhar aqui) aconteceram, amei mais do que seria saudável, trepei menos do que seria saudável, insultei mais do que seria aconselhável, fui insultado muito menos do que seria justo, enfim, vivi todo esse tempo. E vida é energia, é criação, é o desequilíbrio das gunas, é toda a manifestação das coisas inexistentes vindo à existencia, uma verdadeira suruba ontológica. No entanto, como estou subordinado à mítica Sociedade Judaico-Cristã Ocidental enquanto ser biológico, uma coisa que tal sociedade considera alma mater de sua existência me faltou: grana.
Quero dizer, olhe pra nós! É, isso mesmo! Todos nós que acordamos mais cedo que gostaríamos, que dormimos mais tarde que seria saudável, passamos menos tempo com quem nos faz bem do que seria aconselhável, delegamos mais valor à pensamentos pré-fabricados do que seria são, confiamos mais em pequenos e inofensívos (ou nem tanto) ópios diários do que seria saudável. Minamos nossa saúde física, mental e espiritual, emburrecemos, empobrecemos, vivemos correndo atrás de dívida de 115% de tudo que existe. E por que raios, me pergunto agora?
Preciso confessar a vocês que sempre sonhei com meu falanstério. Imaginava comprar algumas terras (ou extorquí-las de algum ruralista, ladrão que rouba de ladrão....) e montar a mini-sociedade anárquica temente à Natureza e implacável a Caos e Panku. Mas esse sonho me parece cada vez mais e mais distante. Você pode (e, pelos deuses COMO PODE!) tirar o dinheiro de uma pessoa, mas estou cada vez menos confiante que você possa tirar uma pessoa do dinheiro! Vivemos em um país que tem 5013 anos de pura plutocracia! Regido por uma idéia de ocidentalidade oriunda do continente onde os medíocres meteram na cabeça que eram superiores e, como é natural aos medíocres, sujeitaram todos os outros povos! Minha mãe não conheceu a Natureza, meus avós não conheceram a Natureza, e nossa falta de oralidade ancestral não me permite especular qual dos meus antepassados foi o último a não viver regido pela ganância própria ou de outrém. Viver na Terra, da Terra e para Terra me é um conceito alienígena, que cultivo com o mesmo quadro delusional que faz alguns imaginar como seria se fossem cavaleiros Jedi ou alunos de Hogwarts.
Mas não pensava assim ano passado. Acreditava que ainda era possível. Pois é, nesse ano passei a maior parte do tempo desmonetarizado. Duro mesmo. E isso a princípio não afetou minha dignidade, mas comecei a notar que várias privações socialmente construídas se apresentaram. E comecei a sentir falta de certos prazeres socialmente construídos, prazeres pequenos, acessíveis a qualquer classe trabalhadora.... Aí é que está. A ausência dessas privações e o acesso a esses prazeres são pequenas áreas de conforto que nos faz pensar "como nossa geração é melhor que a de nossos avós" e encarar todo o absurdo que nos é imposto como natural, como aceitável, razoável, como "não há outro jeito". Temos orgulho de sermos fortes, honestos e trabalhadores, mas estranhamente não nos revoltamos contra aqueles que não são nem fortes, nem honestos, nem trabalhadores e que vivem a vida inteira na zona de conforto às nossas custas. Isso mesmo, aquelas nossas gotinhas, eles vivem em um tanque para baleias brancas cheio delas!
"Tudo tem um preço", dizem. É, como queira, mas o preço nem sempre é justo. Tudo tem um valor, e se algo tem um valor infinitamente menor que seu preço, isso chama-se ROUBO. Sem falar que estou falando aqui de uma minoria que pode e prefere, até, pagar preços exorbitantes por coisas sem valor exatamente para ostentar o PREÇO que pagaram. Pense em uma grande marca, qualquer uma. E também de uma maioria que necessita urgentemente com sua própria vida de coisas de valor moderado, disponível por um preço razoável mas que NÃO TEM como pagar. Pense em remédios não cobertos pelo SUS. No entanto, o que tem mais valor não tem preço. E aí você e eu não damos VALOR ao que não tem preço. Nosso critério básico torna-se o preço, porque é tão fácil conquistar o que tem valor! Uma manhã aprasível, um amor sincero, um momento de epifania.... Isso te exige tão pouco e ao mesmo tempo vale tanto! Mas você e eu não ligamos mais para essas coisas, porque TUDO TEM UM PREÇO, não é?
Não, não é. Acabo de dar meu braço a torcer, por isso não posso fazer o discurso do prosaico esquerdista hipócrita que xinga o imperialismo ianque (sic) e come McDonalds. Mas sigo afirmando e, se meu arcabouço teórico e minha conexão celestial me permitem dizer, tenho ainda certeza que não é certo se render. Proponho mais perguntas, e não sugiro nenhuma resposta, como me é lícito não fazer. Viver um drama a cada dia é um saco, mas vestir a Poliana e gritar por uma quase-dúzia de mercenários que não te dariam nada é irracional. E adivinhe! É EXATAMENTE ISSO que estamos fazendo! Vou abordar em outro texto o problema inerente à lastima de boa parte de nossa inteligentsia também torcer por futebol. Mas hoje basta-nos essa reflexão. Não quero levar meus nobres seguidores para o lado vermelho da força, mas aqueles que palmilham Pindorama viram o quão desesperado o conservadorismo está pelo arranhão em seus lucros.
OK, o que o tempo psicológico tem a ver com isso? Bem, meu tempo psicológico sequer passou nesses seis longos meses, pois minha preocupação primordial era saciar a fome. Não deveríamos querer mais "prazer pra aliviar a dor" e sim entender e atacar o motivo da dor. Pode até ser que a necessidade seja mãe da invenção, mas ponha um Einstein em um hellhole capitalista sem um centavo e faça-o pensar na Relatividade. Não que agora eu esteja mais tranquilo ou menos faminto. Mas, longe de qualquer mágica burra, ESSE é o poder das palavras! Aqui, refletindo com vocês, consigo entender que vida é mais que comida. E consigo superar meu bloqueio.
Talvez isso funcione para todos.
