Devo a um amigo meu o conceito de "ruído". Vocês devem conhecer ele, ele é um rapaz inteligente e mais ou menos realista que, embora discordemos muito em alguns assuntos e eu sinceramente ache o approach dele ao léxico pouquíssimo ortodoxo, respeito muito sua opinião.
Ruído, aquela imperfeição que prejudica a transmissão de uma imagem ou som. Pra citar o pai dos burros: para a Eletrônica, "em um circuito", ruido são "correntes ou tensões indesejáveis, usualmente não muito intensas, resultantes de causas incontroláveis, como, p. ex., movimento aleatório de elétrons num condutor, emissão ao acaso do catodo de uma válvula, etc". Ou ainda, em Computação ruído é "toda fonte de erro, distúrbio ou deformação de fidelidade na transmissão de uma mensagem visual, escrita, sonora, etc.; sinal indesejável que não pertence à mensagem intencionalmente transmitida". Não difere muito da física, em especial da preconceituosa Ondulatória Musical, que considera nota o som ordenado e ruído o som de amplitude e freqüência aleatórios.
Da mesma forma que o termo "oxyMORON" surgiu como uma ofensa em um fórum de Internet e foi adotado (ou pelo menos deveria ser) pela comunidade, agora proponho que a admoestação de meu colega a respeito da falta de clareza, inteligibilidade ou mesmo eloqüência do meu pensamento nos sirva para conceituar mais uma daquelas coisas que nós conhecemos bem mas não falamos sobre elas porque não temos palavra melhor que "coisa" em língua humana para referí-las.
Uma de nossas características mais marcantes é a forma como conseguimos responder uma pergunta NÃO a respondendo. Não conseguimos evitar, nossa lógica é outra. E seria interessante ter um conceito bem definido, especialmente para aqueles entre nós que ainda acreditam na lenda de um mundo onde uma pessoa é julgada não pelo tamanho de seu exceptis excipiendis, mas pela qualidade de seu caráter.
Pois é, meus caros.
Há uma pequena "parábola".... Escrevo isso rindo. Assim como a peça "Il primo miracolo", que é obviamente uma sátira muito menos inspirada que as de Monty Python, foi recebida em minha cidade com auras de sagrada e reveladora XD da mesma forma vos apresento agora uma adaptação feita por mim mesmo de uma antiga anedota como se fosse uma fonte fidedigna de saber acadêmico XD
"A quimera retirou seu disfarce diante deles até a cintura, como quem começa e despir-se de um macacão suspiciosamente justo, ficando como um homem de cintura ara baixo. 'Você não afirmou ter cinco cabeças?', perguntou o observador mais perspicaz. Realmente, uma cabeça de dragão projetava-se de sua coluna, mais abaixo uma de tigre, e, quase como que servindo de ombros às robustas patas dianteira munidas de grandes garras, uma cabeça de unicórnio de um lado e uma proporcionalmente grande de uma ave de rapina do outro. 'Para mostrar minha quinta cabeça', respondeu a quimera, 'eu precisaria tirar as calças'. Não seria necessário a aguçada audição de seus oito ouvidos para que a quimera percebesse os risinhos, uma comoção infantil, uma malícia. 'Minha cauda é uma cobra', continuou, 'minha quinta cabeça é uma cabeça de cobra, na onda de minha cauda. Seus maliciosos! Até porque eu sou uma fêmea!'"OK.
Você ainda está aqui?
Essa mensagem é uma espécie de parábola dirigida aos oxímoros, com uma singela mensagem alertando os jovens de dois perigos de manter contato com humanos. Poderia ter sido compilada em forma de um adágio, um aforismo até, e seria mais concisa e direta, talvez até mais memética. Mas, assim, perderia seu motivo de existir.
Começa-se pela seleção do leitor. Sim, não é o leitor que escolhe o texto, mas o texto que elege por quem pode e por quem não deveria ser lido. E com o ruído tentamos, inconscientemente, manipular isso. Vendo se tratar de quimeras (aqueles que reconhecerem o significado mitológico genérico da palavra), e omitindo uma série de informações que não fazem parte do senso comum (disfarce? Quem assistiu MIB e pensou na barata gigante vestindo o Edgar pensou certo) e outros realmente relevantes (porquê ela se despe? Para quem? Onde? Quando? Por quê?), além de umas que só o autor sentiu falta (a primeira coisa a ser revelada foram suas enormes asas, e isso e a reação a isso são omitidos), um bom número de classes socio-intelectuais perde rapidamente o interesse. Os mais curiosos que chegarem até o final se sentirão ou traídos pelo humor de toilet extremamente sem graça e pela falta de um desfecho. Tachar-lo-ão, injustamente, de absurdista. Uma outra parcela procurará significado nas cabeças. A quimera lembra muito os querubins e outras bestas bíblicas, essa relação pode despertar curiosidade simbólica. No entanto, pouco pode-se depreender desse enfoque (escolhi com carinho as cabeças para que alguém versado na astronomia chinesa rapidamente visse um ocidentalização das Bestas Celestiais, o que pouco tem a ver com a moral da história. Viu? Ruído).
A quimera, no entanto, não foi escolhida ao acaso. Todo oxímoro se sente meio quimera, pois como os europeus esquartejaram a África com suas linhas retas sobre o mapa, as sociedades seccionam arbitrariamente o todo (o caos) e atribui relações de oposição (a ordem) que negam mesmo a existência do oxímoro (aliás, o próprio termo conota isso). Isso lembra, não à toa, a teoria do "Roscharsch original" de Malaclipse o jovem. porém, posso dar-lhes uma dica de leitura: não faria diferença alguma se as cinco cabeças fossem de arenques vermelhos.
Mais diretamente, a parabola admoesta sobre duas tendências terríveis que o ser humano tem. A primeira é de olhar para o parcial e tentar ver o total. Se por um lado isso estimula a desejada curiosidade científica, por outro continua a ser um enfoque errôneo e chega a ofender. É óbvio, relações humanas precisam do tato, mas se a quimera tivesse virado as costas e não respondido o observador, em pouco tempo (ou assim pensa o oxímoro) se espalharia o boato que a quimera tem apenas quatro cabeças. Muitos oxímoros recebem rótulos não exatamente injustos, mas bastante parciais, com base em conceitos de emergência, para não dizer preconceitos, que surgem da singularidade da situação. Se a besta estava disfaçada, pressuõe-se que não era Haloween: havia uma tensão social, e uma tensão mal resolvida.
A segunda, tipificada pela malícia, é a tendência que o humano tem de olhar para os outros e ver a si mesmo. O gracejo (que, não a toa, ajuda a fixar o conceito) a respeito da "cabeça do pênis" pressuõe que a sociedade da quimera seja tão falocêntrica quanto a sua. O que ofende de modo moderado a besta. Para o oxímoro, que provavelmente vê conexões que a turba consideraria paranóia (exceto quando não as vê), esse desconforto, hoje tão pouco cômico mas ainda bastante didático, remete a lembrança de uma série de normatividades que lhe foram impostas e que, se não foram dolorosas e ofensivas, foram desconfortáveis e humilhantes para serem esquecidas.
Viu? Não há nada de esotérico, é tudo muito simples. Tem cara de esteganografia, fala de si como se fosse criptografia, mas não passa de trivial para o emissor e para o receptor. É claro, um adágio ou um aforismo correriam Twitter afora com muito mais desenvoltura, mas não tocaria no coração desse ser tão próximo de cada um de vocês, nem o faria rir sozinho quando mais uma conexão é feita. O ruído é, para nós, a moldura que protege mas não ofusca a imagem, exceto para aqueles que acreditam que a imagem é distorcida demais para não atribuir isso à imperfeição do vidro. Ruído, porém, é nossa roupa. Sem ele, estamos expostos. Sua sociedade convive melhor com a mentira da roupa que com a verdade da nudez. Conviva melhor com a loucura de nossa magia, já que é bem difícil para nós conviver com a lógica de seu niilismo.
Sem notas de rodapé hj. Eram muitas e estou sem saco.

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