Ou "Enquanto metafóricos gigantes invisíveis mas REAIS espalham a miséria pelo mundo, ainda há quem chute a carcaça de gigantes mortos"
Não gosto de tocar nesse assunto, mas ele irrita os deuses então acho que deveria voltar a ele periodicamente. Mas não foi por isso que voltei.No fim de novembro de 2012, creio eu, um perspicaz e cético amigo meu me surpreendeu postando no meu feicibuqui um texto panfletário, vazio de conteúdo e mal-escrito por um terceiro sobre a diferença entre Astronomia e Astrologia. Por todas as patinhas de elefante de Hzioulquoigmnzhah, quem não sabe disso? Existe ainda alguém em pleno século XXI que confunde os dois? Ou que afirma que há base científica para Astrologia? Mas, mesmo intrigado com uma atitude assim vinda de alguém inteligente como esse amigo, não me preocupei muito. Sim, me intrigou, porque me pareceu algo como tentar provar que um professor universitário está errado a respeito de algo que ele sequer afirmou usando uma página de cartilha como prova cabal. Mas minha teoria sobre mecanismos de reação automática explica isso razoavelmente bem. Mas então esbarrei com um artigo de meados de Novembro desse ano de um site conhecido por um humor provocativo e politicamente incorreto (que ainda estou indeciso se odeio gostar dele ou gosto de odiá-lo) sobre cinco "superstições insanas" que ainda são levadas a sério por políticas públicas mundo afora. Ora, nenhuma das "superstições" me pareceu tão insana assim, mas não me surpreendeu dado o nível de imbecilidade humoristicamente intencional do site. O problema é que o grau de decepção que está começando a se tornar mais freqüente que considero sadio foi temperado com uma igualmente intrigante introdução quando o assunto era Astrologia. Pelas mesmas patinhas de Hzioulquoigmnzhah, seria coincidência?
Sim, o prato do dia é superstição. Gente, não é porque eu gosto de defender simpatias, benzeduras, crenças populares, cultos ancestrais e afins que eu considero isso ciência. Cientista é quem analisa essas crenças no âmbito das ciências humanas, não quem pratica. E quem pratica geralmente não quer também o título esnobe de Ciência. Acho que ninguém nunca afirmou o contrário, então ninguém precisa desmentir nada. Exceto por gente como a do Design Inteligente, que tenta empurrar religião pro campo da ciência (o que é, mais que errado ou absurdo, contraproducente) ou por gente como os Neoconfucionistas (que tentam conciliar tradição e modernidade, oque, a princípio, foi um aidéia louvável pelo motivo errado). Em todo caso, "superstições", não importa o quanto eu ache essa palavra inapropriada, são manifestações culturais, reforçadores de identidade. Não são métodos reais de divinação ou vaticínio. São válidos como sintomas de mentalidade e cultura de um dado extrato social. São representações de identidade e de reconhecimento seculares, senão milenares, que frequentemente ignoram contextos herméticos de suas origens e se tornam bem dinâmicos, se adaptando e evoluindo de acordo com as interações desse extrato consigo mesmo e com o meio. Exemplos de sabedoria expontânea e autóctone, que somente um cientistóide muito arrogante se recusaria a reconhecer-lhe a coerência. Resistência contra a massificação globalizada da cultura, da qual somos vítimas. Podem ser interessantes e apaixonantes, mas não significa que sejam efetivas fora de seus contextos. Como obras de ficção. Para um exemplo rápido na minha cultura, os filme "Os Outros" (com Nicole Kidman), que trata de fantasmas e assombrações, é um filme incrível que me levou à reflexões psicológicas e sociais incríveis e me serve de exemplo metafórico em dezenas de prelados. Mesmo eu não acreditando em fantasmas.
Vivemos nos últimos três ou nove séculos¹ (exceto pelo que eu considero a real Idade das Trevas, o século XIX :p ) um crescente prazer pelas coisas que são sinceramente irreais. Sonhamos, escrevemos ficção, lemos e baseamos nossas vidas nela, nesses pequenos e mágicos prazeres. Como identificação entre as subculturas, como aquela pequena tatuagem da Ouroboros te identifica como fã de Fullmetal para qualquer outro fã. Ninguém realmente se alinha como se estivesse no anime. Ou como quando você é atendido no banco por um funcionário que te reconhece como um Vampiro porque ele também é um. Ora, ninguém realmente suga sangue aqui, falamos sobre jogadores entusiásticos de um RPGs de mesa. Ou como pessoas, especialmente gaúchas, que usam a camiseta do seu time mesmo quando este acabou de perder o Grenal. Por mais que eu deteste futebol, preciso admitir que isso é um mecanismo de identificação. Ou, seguindo meu desafeto constante, sua identificação com seu país, sim, esse do qual você fala tão mal mas defende apaixonadamente. Você já teve a sensação de encontrar aleatoriamente um brasileiro no meio, sei lá, da China? Vivemos a virtualidade, onde realidade é representação, é subjetiva. Pessoas estudadas e esclarecidas são capazes de, momentaneamente, "trocar" a metodologia como uma pessoa que abre o mesmo arquivo de computador com dois programas diferentes. Um programa é o seu, que você usa para escrever sua visão de mundo. Outro é um WYSIWYG que roda seu objeto em seu contexto. Então, você o compreende de duas formas, como objeto E como realidade.
Assim, ainda em exemplo, me é divertido puxar assuntos astrológicos com as meninas (e alguns meninos também), mesmo que eu não acredite nisso. Pra falar a verdade, é mais divertido e revelador da personalidade do(a) interlocutor(a) apontar justamente onde a Astrologia erra. Ah, quanto rendeu um simples "sou Escorpião, mas não me acho nem sexy nem vingativa"! Por que raios eu me fecharia em copas quando o assunto é uma ex-protociência? Por que eu levantaria guarda e deixaria de participar do assunto só porque não acredito nele? Por que manteria uma defensiva diante de apenas MAIS UM dos muitos mecanismos ociosos de classificação ordenada da realidade entrópica? Tal comportamento, de repúdio, de aversão, me parece mais religioso que racional. Como religiosos que evitam falar no diabo. Como cristãos que não gostam de ouvir sobre Umbanda. Como seguidores de certas seitas diante de uma atitude pessimista. Isso só reforça a teoria das reações automáticas (que apresentarei melhor quando estiver pronta) de que o zelo "religioso" (ou melhor, o mais frequentemente associado à questões de fé e confissão) é na verdade uma função mental inata e ubíqua do ser humano. Em suma, pseudociência=serious business. Muitas pessoas, mesmo depois da ridícula derrocada positivista, ainda mantém o zelo e fervor religioso pelo que é verdadeira ciência. Falar de alguma "superstição" perto delas é blasfêmia. Anátema, opróbrio e vitupério! Elas não são capazes sequer de tolerar, quanto mais acreditar que alguém pode realmente ocupar a mente com isso. Isso não é ciência! Como alguém falaria sobre isso? Aí eu lembro que ninguém realmente pensa que isso é ciência.
Pois é justo essa preocupação contra inimigos inexistentes que me preocupou. Se você pegar um livro de psiquiatria ou de auto-ajuda do início dos anos 80 você vai ter a impressão de que o mundo inteiro (não só o mundo! Os EUA todos!) passaram duas décadas imersos em uma epidemia de auto-ódio e baixa auto-estima, enquanto qualquer pesquisa menos parcial apontaria justo o contrário, uma sociedade orgulhosa e arrogante, centrada na auto-realização (não é a toa que vários "gurus" oportunistas fizeram fortuna e miséria nessa época), uma geração yuppie, talvez uma resposta à contracultura das décadas anteriores. Como um escritor da época apontou, "essa psiquiatria [da auto-realização] arruina seu papel como ciência e está mais pra Astrologia que pra Astronomia". Tenho certeza que a Psiquiatria avançou muito desde então, e ela não deve se envergonhar disso mais do que a Medicina se envergonha da teoria dos humores corpóreos. Mas penso em quantas vidas foram destruidas por pensarem que não se amavam o suficiente enquanto talvez devessem na verdade se amar um pouco menos. Objetividade científica meus novos! Um posicionamento metodológico consistente teria parado essa barbárie. Podemos aceitar que era justo para época, mas não podemos repetir essa crassidão epistemológica.
Espero mais uma vez que eu esteja enganado. Espero que seja só uma coincidência. Espero que meu amigo tenha sido ofuscado pela minha rigorosa construção memética (aquela que me faz parecer idiota e espanta os P.I.M.B.A.s) e tenha me reputado por uma criança de primeira série, seguindo a metáfora da página de cartilha. E espero que a intenção da piada daquele site tenha sido a obviedade. Espero que o mundo não esteja em guerra contra moinhos. Espero que não seja como não seja como quando os franceses se amotinaram para tosquiar as prostitutas que davam para nazistas enquanto os verdadeiros "boches" minavam sua organização por dentro. Ainda estou amadurecendo uma teoria à respeito da difusão didática e memética de verdadeiros problemas introjetados de nossa sociedade ocidental, que é uma gota num oceano. Mas talvez, pela segunda vez na História da Humanidade, tenhamos o aparato intelectual necessário para tomar as rédeas de nossa mentalidade para construir a sociedade que queremos (ou algo um pouco menos oposto à ela). Não podemos falhar de novo, mas sim, vamos falhar se concentrarmos nossos esforços criativos contra inimigos inexistentes. Se nossos seres pensantes (que, como Einsten bem observou em carta aberta à Freud, são mais facilmente capturados pelas representações e construções da verdade por parte de quem controla as mídias²) não deixarem de lado posicionamentos políticos e filosóficos mofados e assumirem a responsabilidade de subverter o senso comum que os domina, bem, essa é uma causa perdida.
Mas sinceramente espero estar enganado.
¹Intencionalmente inacurado. Dita o tom da generalização que se segue.
²Einstein se referia à página impressa, mídia ubíqua entre os intelectuais da época. Portanto, a Inteligentsia tinha menos noção da realidade material e se deixaria levar mais fácil por sistemas idealizados. Carta aberta, parte de uma série promovida pela ONU de lucubrações com a temática "por que a guerra?" por ocasião de um aniversário do fim da Segunda Guerra, publicada no Correio da Unesco, não lembro o número.

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