...pra vocês, porque pra mim está claro que vocês e eu somos racistas, não por escolha, mas porque vivemos num sistema racista
Francamente, o racismo é um assunto que já está me entediando. Ele dorme e acorda comigo mais do que se eu estivesse casado com uma pessoa racista E de outra etnia que não a minha. Parte porque ainda estou trabalhando em um grupo de extensão e pesquisa dedicado aos quilombos aqui do sul, e um dos fatores que a gente vê com nossos próprios olhos no presente e no passado desse povo, os descendentes dos resistentes, é esse racismo.
Mas também porque tenho um séquito de cyberamigos pensantes de diversas ideologias nas redes sociais num momento onde o governo aprova, quase unilateralmente como lhe é próprio, medidas que, para meu espanto, causam moderadas polêmicas (esperava que não houvessem). Não vejo no meu dia-a-dia de universitário e cyberpessoa um racismo ignorante (vocês sabem, no meu dia-a-dia de SSA, o que vejo é ESPECISMO, mesmo). Na verdade não vejo sequer racismo no sentido senso-comum da palavra, em sua forma pura, violenta e boçal, até porque isso é crime. Vejo mais um racismo "sutil", um anti-anti-racismo¹, mas BEM pronunciado. Mas venho da periferia, do que Caetano e Gil chamariam de "quase pretos de tão pobres". Uma equação nefasta aparece diante de mim, enquanto ser sensorial. Estou em ambas as pontas de uma cadeia social e vejo uma discrepância. Como ser pensante, minha missão é descobrir o que acontece entre essas duas pontas.
Em parte, esse anti-anti-racismo¹ de que falo prova nossa teoria de um racismo sistêmico, tão arraigado e quotidiano que consegue ser imperceptível ao observador quotidiano. Sabe, como a lei da Inércia, que vai contra qualquer senso comum, pois conta com uma excessão (o atrito) praticamente ubíquo. Mas ninguém tem dificuldade pra aceitar uma quebra do lugar comum tão antiga assim. Já teorias raciais, que no Brasil estão 40 ou 60 anos atrasadas em relação aos EUA, por exemplo, ainda encontram essa resistência e vão demorar algum tempo pra serem compreendidas. Mas como os físicos newtonianos não sentaram e esperaram, eu também não vou sentar. Tenho fé que vivemos um tempo como o de Pasteur, quando ninguém aceitava muito bem a idéia de bichinhos invisíveis em toda a parte que faziam as coisas estragarem e as pessoas adoecerem. Mas ao invés de bichinhos, hoje são barreiras invisíveis, feitas de memes, de mentalidade, arraigadas na cultura e reproduzidos de ponta a ponta, do sacristão ao cientista, do pedreiro ao ator, do bancário ao banqueiro, como convém ao que é cultural (seria legal falar mais disso depois).
Dos dois lados dessas barreiras há pessoas. No caso da barreira racial, eu estou do mesmo lado que você, leitor branco, mas quando tentei atravessá-la, encontrei resistência. E os que estão do outro lado, os excluídos, os que tem direitos assegurados do lado de cá mas não conseguem atravessar a barreira, se dividem em muitos grupos. Um são os chatos, insistentes, paranóicos (não é assim que os chamamos?) que lutam contra a barreira, protestam contra ela, em especial aqueles que a ultrapassaram e sabem que é ela uma dureza. Mesmo entre esses existem diferenças. Há os que estudam a barreira e se juntam com caras como eu, que também querem acabar com a barreira. Há também quem reaja com violência contra a barreira, e acabe por adotar um posicionamento agressivo e antipático. Eu não posso culpá-los, você pode? Há também os que, talvez pelo exemplo de sofrimento de quem lutou, se acomodou e se conformou a não pegar o que é seu por direito do outro lado da barreira. Mas há uma grande maioria que, depois de séculos de permanência dessa barreira, nem sabe que tem direitos do outro lado dela. E você, leitor branco, ignora essas diferenças.
Uma das forças da natureza é essa: sempre subestimar a sensorialidade alheia. Fui chamado de hipocondríaco minha infância inteira a cada vez que reclamava de uma dor ou um mal estar, tanto que isso ficou introjetado em mim e passei a ignorar minhas dores e mal-estares. Hoje, com uma saúde deteriorada, vejo que não só o problema era grave (a ponto de eu sentí-lo) como o mais superficial exame teria confirmado minhas infantis suspeitas e tratado o problema cedo. Deve ter um nome, essa força nefasta da mentalidade humana de subestimar o ponto de vista alheio. Mas me foge agora. (Mesmo hoje quando percebo um problema num sistema de relacionamentos humanos, ouço "é coisa da tua cabeça". É claro que é coisa da minha cabeça, mas foi você que pôs isso aqui!)
Enfim. É dessa força que o racismo, esse ser artificialmente construido na gênese de nosso Estado em harmonia com o sistema econômico inédito importado da Europa, se vale para sua condição morta-viva² de operação. Ora, você branco não vê racismo porque não é em você que ele age. Então, saiba que existem sim negros "hipocondríacos", uma minoria bastante vocal, que parece tão dominada pelo senso comum quanto você, fazendo exatamente o que você faria no lugar dela, e têm o mesmo direito de ser como são que você tem de ser como é. Mas existe um pessoal estudando o racismo no sistema, que não te odeia, não te culpa nem quer tirar nada que é teu. Entretanto, ambos sentem na pele a força desse dispositivo. Por isso, não foi dado a você o direito da metonímia de que todo anti-racista luta contra moinhos. Você tem o direito de não opinar sobre a Palestina porque não é palestino, sobre religião por que não é religioso, bem, faça uso desse direito para não opinar sobre o racismo se você não o vê ou sente.
¹Aliás, adorei o termo, anti-anti-racismo! Que recursivo! Talvez seja a nomenclatura certa para o truque usado para que pessoas não-conscientemente-racistas apoiem o dispositivo racista. Ao chamar alguém de racista, ele sempre pode dizer, mudando o foco, "não tenho nada contra os negros". Ao chamar alguém de anti-anti-racista, deixamos claro que queremos dizer que ele se opõe aos movimentos de luta por direitos. Perspicaz, não?
²Vem da teoria de "dispositivo zumbi", um cruzamento de um conceito foucaultiano com o jargão linuxiano. O racismo brasileiro seria um dispositivo zumbi porque foi criado com propósito bem definitivo, mas continua operando mesmo que esse propósito (exploração de mão de obra escrava) não mais exista. Mas por causa da homonímia em contextos raciais (você sabe, Zumbi dos Palmares) evito usar a "palavra Z". ;) A teoria está longe de ser consenso, inclusive. Teóricos mais radicais, especialmente marxistas, afirmam que ainda existe um propósito, mas eu não vi esse propósito ainda :)

Nenhum comentário:
Postar um comentário