Ou "A sobrevivência dos mais mentirosos"
Tá, começamos com um exemplo bem Godwin: Imagina se Hitler, ao invés de seus carismáticos discursos, tivesse sido cortantemente sincero: "Olha, pessoal, eu não sei nada de economia nem de estratégia militar. O que eu sei é fui um soldado na primeira guerra e minha experiência me força a acreditar que um mito é verdade: o mito de que somos uma raça superior e podemos dominar o mundo mesmo sem planos. Assim, por talento natural. Diplomacia é pra fracos, os poucos acordo que fizermos, quebramos um pouco depois. Somos superiores, não é mesmo? Também não precisamos de intelectuais. Se somos superiores, pra que ficar pensando, questionando, escrevendo? Vamu pegar o mundo que o mundo é nosso! É no talento! Se o bixo pegar, matamos os judeus. Por que os judeus, você pergunta (na verdade nem todo mundo perguntaria). Porque morremos de inveja deles. Eles tem uma cultura relativamente diferente da nossa, um ascendência inconsistentemente diferente da nossa e uma religião que deu origem a nossa. Mas eles são diferentes, ora pombas! O cristianismo deu pra eles uma função que considerava indigna e eles acabaram por ter a sorte de participar na primeira fila do nascimento do capitalismo. Morro de inveja, então trato isso de maneira pejorativa. Todos nós europeus fazemos isso, aliás. Como a morte deles vai solucionar alguma coisa? Eu sei lá! Fato é que enquanto tivermos forças lutaremos. Se a lenda for verdadeira, venceremos. E se o bicho pegar, eu me mato." Sincero e esclarecido.Mas ele não disse. Porque o preconceito, a mentira e a ignorância ɹ a única coisa que legitima (e, aos nossos olhos, invalida) o poder, esse ser inexistente mas real que, como diria Foucault, é mais um leque mal organizado de relações. Digo isso porque qualquer sistema que exponha consistentemente suas bases e permita-se ser questionado é válido e aceitável. Por que qualquer pessoa pode concordar ou não com suas bases, ou com a maioria delas, ou decidir quantas inconsistências e discordâncias pode tolerar, e optar por aderir ou não. Mas isso não dá certo, porque ninguém em sã consciência adotaria um modo que beneficiassse seu proponente em próprio detrimento. Logo, qualquer forma de poder precisa necessariamente apresentar-se como legítima antes de qualquer análise, e lançar mão de todas as estratégias possíveis e impossíveis para impedir essa análise.
Não penso em algo maquiavélico, é questão de "seleção natural". Se em algum momento algum projeto de poder foi sincero e esclarecido, bem, com certeza ele não vingou. Aquele que se valeu das paixões da turba, dos pontos cegos da consciência coletiva, da interpretação parcial que provavelmente permeava tanto o proponente quanto os "signatários", esse foi o projeto de poder vencedor. E seu exemplo foi sendo introjetado, aperfeiçoado, sofisticado através da história da humanidade a um ponto em que o grau de sutileza torna quase imperceptível a restrição à opção de aderir ou não.
O nascimento dos Estados é um exemplo sutil, mas visível e auto-expicativo pela falácia "não, um escocês de verdade". A sujeição do povo africano ao trabalho compulsório em escala desumana é um exemplo bastante óbvio hoje em dia. Ninguém aceitaria dar um tratamento diferenciado, quanto mais desumano, a um semelhante sem ser terrivelmente amoral. Logo, para justificar essa exploração, era necessário acreditar que não se tratava de um semelhante. O racismo em tempos neocolonialistas e o patriotismo, irmão gêmeo da xenofobia, nesse exato momento são ótimos exemplos de mecanismos de alienação da idéia de semelhante. Mas não se restringe a isso.
Talvez, dentre os diversos exemplos postos em ordem de patência, a forma mais bem acabada de projeto de poder mentiroso e turvo seja a democracia, pois pressupõe uma liberdade que não existe em ponto algum de sua história, mas por ter mecanismos de censura muito mais sutis é automaticamente aprovada pelos que acreditam na liberdade e isenta a priori de questionamentos. A democracia é grande devedora do absolutismo. Sem essa comparação honrosa, ninguém poderia acreditar que a ditadura da maioria seria liberdade. Sem esse trauma na memória de Clio, os homens teriam notado logo de cara que a diferença entre a democracia e o absolutismo é apenas de volume. O conteúdo, acabando com qualquer metáfora fisica, é o mesmo. Como assim? No absolutismo, crê-se que uma minoria tem o direito, ou a capacidade, de dirigir a maioria, se não para o bem comum, para uma suposta "condição justa". Na democracia, crê-se que a maioria escolhe uma minoria, um pouco maior e mais transitória, de seres com exatamente o mesmíssimo poder. Por isso, aliás, é tão importante a alternância entre os poderes para que a democracia-teoricamente-melhor-que-o-absolutismo funcione. Ora, não é isso que acontece na prática, com essa minoria lançando mão de todos os subterfúgios para manter a maioria na ignorância necessária para se manter no poder. Nem vamos entrar em uma situação hipotética onde uma maioria vota a favor do projeto de extermínio de uma minoria. ESSE expediente específico, como ótimo exemplo didático, não é mais praticável pois pressupõe uma ignorância muito maior, como você mesmo deve saber.
Um ponto positivo, ainda que insuficiente, é que ainda é permitido que as minorias se mobilizem e exerçam um poder maior que a soma de seus membros, isso é, tomando consciência das regras do jogo e negociando estrategicamente com essa minoria que ludibriou a maioria mas não é tola para irritar uma minoria mobilizada que bem pode destruir suas estruturas de manutenção da ignorância. O poder abre mão de uma parcela de tamanho negociável de seu enorme e não declarado "lucro" para não comprometer a existência desse mesmo lucro. Isso foi aprendido depois de séculos de presunção, e agora podemos nos valer desse expediente, longe de ser justo ou ideal (qualquer minoria pode se organizar) se quisermos corrigir as excrescências do sistema. Isso é válido e digno, mas devemos manter em mente que o poder não dará um tiro no pé conscientemente. Não podemos demandar que ele nos tire as vendas e mostre sua verdadeira natureza, nem mesmo uma parcela disso. Ninguém é "burro" ou nobre pra fazer isso. O que podemos fazer e instrumentalizar, é empoderar cada vez mais minorias para que exerçam o poder natural à mobiliação. E vamos negociar com esse tirano.
Para aqueles que não estão satisfeitos em negociar com esse tirano chamado democracia, bem, precisamos descobrir como enganá-lo, como dilapidar seu poder até que ele não seja mais necessário. Mas se você tem escrúpulos e não vai fazer isso, bem, voltamos ao início. O poder é "mau" e se vale da mentira para se manter. Nós somos "bons" e vamos vencê-lo com nossa virtude? Meu amigo, isso já é um mecanismo de alienação ^_^
Se vocês acreditam que é possível existir uma democracia de verdade, com o povo (demos) no poder (cratos), bora construir isso. Eu ainda não vi uma dessas.
¹ erro de concordância intencional.

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