segunda-feira, 22 de outubro de 2012

O mito de Arqa, parte 1

Ou mitologia ruza revisada e contemporaneamente corrigida


Hoje, os homens dominam uns aos outros, mas nem sempre foi assim.
A muito tempo atrás, quando o homem ainda era jovem, não haviam grandes impérios. As famílias se reuniam em grupos maiores, governados por um guerreiro bravo (que chamaremos de Rei) e um conselho dos mais velhos e sábios de cada família. No entanto, a Natureza resistia a essa nova espécie, e seus deuses não favoreciam seu desenvolvimento. Foi então que depois de muito observar a Natureza, os velhos sábios descobriram que deveriam haver humanos que crescessem perto o suficiente da Natureza para que esta pudesse dialogar com eles. Esses seriam o que chamamos hoje de Sacerdotes, o que vocês chamariam de cientistas. Eles não trabalhavam ou caçavam, mas desde sua mais tenra juventude se dedicavam a entender a Natureza.
Como humanos apenas conheciam a si mesmos e os conceitos que os definiam, logo criaram a idéia de Deuses, que seriam como os humanos mas presidiriam, encarnariam, enfim, SERIAM as forças da Natureza. Aparentemente, reproduzir-se era o grande domínio do homem. Sobreviver era sua meta, mas suas alianças e sua forma de organização se baseava grandemente nessa capacidade reprodutiva. O ser humano não era obcecado por sexo, sexo era o seu poder, e seus filhos, dados em casamento entre as tribos, eram a manifestação desse poder. O pai de muitos filhos em muitas tribos mandava em muita gente.
Em especial, onde hoje é a Eritréia, havia um "grande rei" chamado, em nossa língua de hoje, Saaltera (não sabemos como se pronunciavam os glifos dos antigos, logo os pronunciamos como seriam pronunciados hoje). Um rei sábio, mas ganancioso. Por força, mantinha o maior harém de concumbinas de então, vindas das tribos próximas e distantes, além de suas duas "rainhas". Essas concumbinas eram sua forma de manter "diplomacia" entre as tribos, daí sua grandeza.
Havia nessa grande tribo uma sacerdotiza que havia dedicado sua vida ao elemento Fogo, por crer que esse seria o elemento que transformaria pedras em armas poderosas para subjugar por violência as outras tribos. Fazia isso porque tinha muito apreço pelo rei, era sua favorita, também. No entanto, sacerdotes precisavam manter, nos costumes dessa tribo, total concentração na Natureza, logo esse amor seria errado e era mantido em sigilo. Vamlas Ras (novamente e daqui em diante, leitura anacrônica), como era chamado o Deus do Fogo, não parecia se importar com isso. Presidia sobre o Sol e sobre os vulcões, e em danças com seus irmãos rasgava o céu com relâmpagos. Não parecia ligar para a pequena raça humana. Seu irmão Meriq Yaa também não parecia se importar com os pobres mortais que dependiam tão miseravelmente de seu domínio, a Água, e presidia os mares, criava o frio sobre o céu para regar a Terra com seus rios e em dança com seus irmão regava a Terra com seu poder. Terra essa presidida pela silenciosa deusa Elsha Veth, que também parecia não ligar para os pés dos homens que parcamente se moviam sobre seu domínio. No entanto, Arqa Anh, a deusa dos Ventos, se importava com a humanidade. Em dança com seus irmão, corrigia suas fúrias, distribuindo o calor e o frio, aplacando o ardor do Sol, espalhando a Água sobre a Terra e movendo a Dunas.
Desde os primeiros passos, ela via nesses pequenos seres curiosos a capacidade de criar de inventar, e acabou se apaixonando por eles. Uma ávida entusiasta da criação, logo se afeiçoou às mulheres, nas quais via aspectos de si e de seus irmão, pois com água, calor, minerais e liberdade davam origem a outros de suas espécies. Arqa se tornou próxima das mulheres da Terra, compartilhando sua natureza em suas camas à noite. Munidas dessa natureza, elas exerciam o poder que tinham, como grandes mães e desejáveis donzelas, tanto que depois de algum tempo não haviam mais sacerdotes ou anciãos homens, apenas as mulheres, pois demonstravam maior compreensão da Natureza de forma instintiva. Os homens se dedicavam a serviços mais pesados, visto que não possuiam úteros para danificar, logo embruteciam-se para tal compreensão. Entendiam a Morte, apenas, essa força da Natureza que fazia com que os animais e frutos da Terra os mantivessem vivos. Mas não entendiam a dança entre a Elsha e Meriq, que faziam as margens dos rios férteis, ou a dança de Vamlas e Arqa, que mudavam as Estações. Não entendiam porque a dança de Vamlas e Elsha criava uma substância aparentemente nova, muito mais resistente que madeira ou osso. Não entendiam porque Vamlas deixava seu irmão Meriq maior mas mais intangível, a ponto de abandonar para trás suas muitas riquezas em um fino lençol branco. No entanto, aos poucos essas mulheres levariam sua sociedade, não machista ou estratificada, mas integrada, a uma conquista questionável. Não mais dialogariam com os deuses, mas os obrigariam a favorecer seus desejos. Dominariam o Fogo, a Água , a Terra e assim dominariam toda a Natureza. Exceto Arqa.
Voltando ao tempo do reinado de Saaltera, Arqa se enamorou de uma de suas concunbinas, tão linda e tão perfeita que Arqa perdia-se por horas em seu colo, desbravando seus cabelos como a mata, acariciando seu corpo como ao ébano, movendo-a como a dança dos deuses. Descobrindo isso, Saaltera se enfureceu, de uma fúria vã que não tinha sido vista ainda. E matou a amada de Arqa, sua concumbina, gerando forte desconforto com a tribo da falecida e despertando em Arqa um desejo de vingança.
Ora, os deuses não presidiam sobre a vida e a morte. Tinha sua natureza, e a seguiam o tempo todo. Vamlas não podia deixar de agir com ímpeto, consumindo tudo quanto encontrasse e só recuando quando não mais havia o que consumir. Meriq se ajustaria a qualquer situação, exceto quando, frio, poderia ser tão impassível como uma rocha. Elsha era paciente e generosa, uma verdadeira hospitaleira, mas sabia mover-se em fúria. Arqa, que amava a liberadde acima de tudo, fez o que sabia em sua vingança: aproximou-se das rainhas de Saaltera, e as inspirou com a divina sabedoria, e as fez irrascíveis ao comando do rei, o que o enfureceu. Por isso, o rei matou ambas, com grande tristeza. Arqa então seduziu suas filhas com o mesmo conhecimento, tornando-as insubmissas a seu pai. Saaltera agiu da mesma forma, com maior tristeza ainda. Arqa, então, sabendo do grande amor de Saaltera pela sacerdotiza de seu irmão Vamlas, também a possui, compartilhando com ela igualmente sua natureza. No entanto, a afeição entre esta e Saaltera era tanta que ambos chegaram diante de Vamlas Ras e suplicaram por sua clemência, que parasse os caminhos de sua irmã. Prometeu que faria guerra a todos os homens, consumindo-os como fogo. Prometeu que fertiliaria Elsha com o sangue dos derrotados e enriqueceria Meriq com seus espólios. Grande traição, era o que o rei propunha. Consultando seus dois irmãos, Vamlas não parecia muito inclinado à suplica daquele serzinho tão pretensioso. No entanto, possuidora agora da saberia divina, a sacerdotiza entende que, mais cedo ou mais tarde, a religião evoluiria de diálogo para domínio. Que os homens inevitavelmente dominariam o Fogo, a Água e a Terra. Criariam e extinguiriam grandes incêndios ao seu bel prazer, mudariam os cursos das águas para seu próprio bem e sugariam as entranhas da Terra para seu proveito. Criariam e extinguiriam a Energia, moveriam-se com velocidade sobre os cantos do mundo e dominariam a vida desde seu brotar até a procrastinação de seu fim. O homem, esse serzinho arrogante, acabariam por subjugar a Natureza. E a mera menção das capacidades reprodutivas exponenciais desses seres potencialmente dominadores amedrontou até aos poderosíssimos deuses. Saaltera se comprometeu a ser, ele, como o primeiro imperialista/absolutista, "ser para os homens o que os deuses eram para ele". Assim, o domínio da Natureza ficaria na mão de uns poucos, que fariam mistérios e intrigas para alienar os homens comuns que se reproduziam sobre a terra. Para seu próprio bem, os deuses concordaram. Mas havia Arqa. Arqa cujo domínio era o não-domínio, cujo elemento era o vazio e o poder era o movimento. Que amava a liberdade, e movía-se invisível amando todas as coisas que existem. Que nunca poderia ser subjugada pelo homem. Ela não aceitaria tal embuste. Ela não coadunaria com tal mentira. E ela tinha o ódio de Saaltera, que agora também tinha conseguido para ela a antipatia de seus irmãos. Foi assim que Vamlas, Meriq e Elsha planejaram emboscar sua irmã e submetê-la ao mais cruel tratamento conhecido naquela época.

(continua)

Nenhum comentário:

Postar um comentário