Ou "Por onde anda Pan-Ku"
Bem, eu estou perguntando porque não sei. Poderia perguntar aos ex-colegas de quarto dele, Yin e Yang (não os coelhinhos, plz).Como vocês estão carecas de não saber, os hexagramas 1 e 2 do I-Ching dão conta das mutações totalmente Yin ou totalmente Yang. Alguém as chamaria de perfeitas, mas quem conhece as mutações sabe que tanto Yin quanto Yang tem seu lugar, logo qualquer coisa totalmente Yin ou totalmente Yang não terá um final feliz. O hexagrama 1 que usa a metáfora "a ascenção do dragão" para ilustrar o caminho do sábio que vai sempre em frente (mesmo quando não é propício) em busca da sabedoria, por exemplo, (prepare-se para os spoilers) tem um final agridoce, com o dragão perdido pelos céus. Um dragão que venceu duas camades de terra, duas de homem e uma de céu, não tem mais o que atravessar. O sábio chegou ao limite de sua capacidade inquiridora experimental e, embora vencedor, experimenta o vazio e a solidão de permanecer Yang num lugar que deveria ser Yin. Isso não aconteceria, é claro, se Yang ainda estivesse no ovo, mas os barcos não foram feitos para a segurança dos estaleiros, e sim para os perigos do mar. Yang, à luz que uso hoje, não é exatamente uma força ativa, criadora, e sim um força ousada, inovadora e arriscada. Em teoria, é claro, porque Yang foi separado do Yin a golpe de machado.
Diferentemente, o hexagrama 2 é totalmente Yin, e peca pelos mesmos motivos. Enquanto o dragão é um ser do ar, que usará a terra para recuperar energias, o Qilin é um ser da terra, está conformado a seguir o melhor caminho sobre a terra, mesmo que guiada pelos céus. As feministas mais afoitas vão gritar, por que o superpoder do Yin é "conformar-se e obedecer". É óbvio que a China do meu amigo Wang Fu Zhi¹ é patriarcal e, para nossa visão, machista (os pézinhos amarrados vieram um pouco depois, então vamos ser um pouquinho menos severos com o chinas). Numa época onde a guerra ainda era glorificada (bem diferente de hoje, não é?), a sabedoria estratégica era vista como auxiliar e receptiva, oblíqua, ladina, em oposição a simples coragem. Uma vez que o livro é de MUTAÇÕES, o que se chama princípio feminino não é de maneira nenhuma restrito ou reservado às mulheres. Sabe qual o epíteto do segundo trigrama, totalmente Yin? O caminho do homem de bem. Óbvio, homem é genérico para indivíduo (se não era agora é), mostrando que caráter é permanecer firme como a terra no caminho que o sábio sofreu para descobrir. Na verdade, o NOSSO conceito de sabedoria é muito mais Yin que Yang. Na pratica, é claro, porque Yin foi separado do Yang a golpe de machado.
Pois, as lucubrações menos alucinógenas se referem ao caminho do cavalo (ou, já que Yin é feminino, da égua) SOBRE a terra. Coisa horizontal, o homem de bem sabe ceder em nome do bem maior. Sabe se relacionar em uma vacuosfera que Foulcault não seria capaz de imaginar. Talvez em última análise, Yang é a força dos relacionamentos verticais, inquiridores, dos assassinos, criadores e companheiros de buteco dos deuses e dos demônios. Também dos caras que admitem que é muito provável que, ao contrário do que todos pensam, a Terra não seja o centro do Universo ou a Relatividade não seja bem assim na prática. Yin seria a força horizontal que nos ensina a viver em sociedade. Como o sábio chinês que busca a meditação da montanha quando um tolo governa, ou como o poeta que ainda diz "pôr do sol" ou daquele nerd chato cujos olhos brilham quando ele te explica os meandros da Física Quântica. Não tenho certeza se a mediocridade das religiões que giram em torno de si ou a sandice das ciências que menosprezam suas origens tem algo de Yin, mas, se tem algo de Yang, é num traço nefasto :p Nesse exato momento, os tolos fazem ciência, os tolos fazem religião, então quero subir duas montanhas ao mesmo tempo. Fato é que nem as ciências nem as religiões parecem capazes de dizer onde raios se enfiou Panku.
Pois é, se você não é panteísta, você não tem o direito de chamar Panku de deus. Bom, muitos o chamam de "Adão chinês", naquela mesma bizonha² tentativa sincrética que chama o Qilin de "unicórnio chinês". Você já viu um Qirin? Ele mais parece um dragão (bem, tecnicamente ele é um) mas tem cascos de cavalo e DOIS chifres (por que UNIcórnio, então?) parecidos com os do veado. Mas unicórnios são criaturas fabulosas (em todos os sentidos), podem parecer um cabrito chato quando crianças (mééééééééé!!!) e um enorme corcel teletransportante quando adultos. Um unicórnio até ser rosa e invisível ao mesmo tempo, e ser chamado de deus pelos ateus³! Mitos teogônicos são mais complexos. As pessoas se esquecem de seus significados morais e simplesmente rebaixam-nos a contos de fadas, afirmando tão-somente que é impossível. Talvez Deus tenha criado os poetas justamente para dar significado às coisas que não precisam existir para ter um.
Mitos teogônicos em geral são fracos para manter o poder, deve ser por isso, né, Foucault? Salvo por genealogias, mas mesmo assim é mais fácil você ser aclamado filho de Zeus ou de Apolo, ou de qualquer outro desses tarados. Você sabe, divindades menores, mais semelhantes a nós, são infinitamente mais populares. Personificações antropomórficas de forças primordiais de Natureza, essas que você vê na rua, não vendem epopéias. Até a Bíblia nos aconselha a não nos perdermos em divagações sobre os rudimentos do mundo. Logo, Panku foi relegado a uma ambígua nota de rodapé, irônico, porque a culpa é toda dele. O mesmo pode ser dito de Chaos.
É mesmo, onde anda Chaos nesse momento?
¹ Wang Fu Zhi foi o comentarista que elevou o I-Ching à categoria de filosofia. A época dele? Não me lembro, vai catar a Wikipédia, vai?
² Bizonho = Bizarro+Bisonho. It wasn't a typo, y'know ;)
³ Fato.

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