domingo, 1 de novembro de 2009

Vampiros pós-pós-pós-modernos

Não é uma resenha. Contém spoilers. Não leia se não quiser.

Eu vi o filme "Crepúsculo" em DVD. E estou escrevendo isso não para lhe informar ou agradar, caro leitor (se bem que, se lhe agradar é um [bom] sinal de que eu e/ou você não estamos tão alienados quanto é comum pensar). Escrevo isto, como de costume, para ficar em paz comigo mesmo.
Não vi no cinema porque não há cinemas decentes em Hellsfifthshire. E, por ser mais uma adaptação de literatura juvenil, as críticas e elogios ao filme não fizeram parte de minhas leituras semanais. Também não li o livro, então peço perdão aos que leram pela minha ignorância nas linhas a seguir. Mas é bom. Assisti desarmado.
Pelo que li numa resenha de 2 linhas em um anúncio de cartaz de um cinema de Porto Alegre na ZH, me pareceu uma pasteurização emo do filme de vampiro, ao gosto de fãs de High School Musical ou algo assim. Mas minha fiel companheira sempre me mantém vigilante na missão de quebrar estereótipos e alugou o dito em DVD. Sabe o que eu achei?
Me fez pensar. Há coisas ridículas no filme, talvez no livro não fosse tão exagerado. Os vampiros são uns super-homens que param carros com as mãos? Há cenas em que eu me questionei se o rapaz era da turma do Drácula ou do Dr. Manhattan... Mas, como disse, me fez pensar... Especialmente na influência de "Vampiro : A Máscara".
Nunca joguei seriamente o famigerado RPG das antigas da White Wolf mas, além de uma mútua simpatia com a comunidade vampírica de Hellsfifthshire, eu li todo o livro do sr. Mark mais de uma vez. Me influenciou muito, mesmo quando eu escrevia sobre mutantes. Mas, acima de tudo, eu passei a ter uma visão mais crítica sobre o porquê deste secular mito campônio ter cruzado os séculos e se adaptado ao meio pós-pós-moderno.
Por exemplo, apesar de gostar de Wesley Snipes e dos quadrinhos do Blade torci o nariz para os filmes. Quer saber? Dá pra engolir o vampiro se desfazendo em cinzas instantâneas e outras coisas irreais. O que não dá pra engolir é o RACISMO com que é tratado o mito no filme. Se você se torna um vampiro, adeus a tudo que você é, instantaneamente você ganha uma personalidade estereotipada que faria um serial killer parecer um batedor de carteiras. Nada do conflito com a perda lenta e gradual da humanidade que um bom jogador de ‘Vampiro’ deve levar em conta. Por exemplo, a mãe do Blade, que o amava tanto que [quase] morreu para livrá-lo da sina de seu pai, reaparece como uma puta incestuosa desprovida de qualquer sentimento de culpa.
É, parece uma coisa que eu li (Elza Keiko, www.centraldequadrinhos.com/v4/Por dentro/Artigos/roteiro_criativo01.htm) sobre como hoje em dia é sempre o Bem-Bem contra o Mal-Mal nos roteiros de qualquer mídia, sem aqueles meio-termos tão reais que saltam aos olhos de quem quer observar a realidade. Então o cara foi vítima de um predador sobrenatural e, de repente, passou a ser duma hora pra outra, sem resistência nenhuma, sem conflito algum, para o lado "dumal"?
Tá e o Crepúsculo? Ele dá voz a esse dilema como jamais vi num filme. Os familiarizados com o dito RPG reconheceram de cara o comportamento "vegetariano" da feliz família de vampirinhos. É claro, é irreal, mas é possível, tão possível como existir no nosso mundo comunidades que, voluntária ou involuntariamente, ficam fora do mito da inclusão digital. Nos nossos tempos é mais possível que nunca uma vampira e um lobisomem se apaixonarem (como em Underworld, horrivelmente traduzida como 'Anjos da Noite' no Brasil*) e viverem felizes para sempre do que na primeira vez que pensaram nessa hipótese. Nossas lendas refletem o que pensamos. O vampiro não é mais só um ser demoníaco destinado a espalhar o terror em câmera lenta. Ele é um animal social como nós. O mal do nosso vampiro — e isso está explícito em Crepúsculo — está na sua posição na cadeia alimentar, quer dizer, nada mais natural enquanto pensamos, por exemplo, em crescimento sustentável. Não seria o Capitalismo o vampiro que nos assombra, sugando de nossas jugulares a preciosa mais-valia que o mantém?
Tá, viajei um pouco. Mas é isso, é interessante pensar que o vampiro é um ser racional que pode optar por ser ou não um veículo da morte. Mesmo que seja difícil. E, como no RPG, é um animal social. A diferença, e agora vou tocar em outro defeito do filme, é como conviver com humanos. De dia.
Eu já escrevi sobre vampiros (e acho que qualquer um que escreva ficção mais cedo ou mais tarde vai fazê-lo). E dada a imensa variedade de versões da lenda qualquer um, até você, prezado leitor, buscaria o SEU vampiro. Cruzes e água benta? Acho difícil. Uma mordida e a vítima se transforma? Há quem prefira assim. Mas a luz do sol foi, através de séculos de adaptações cinematográficas, uma incólume baliza entre eles e nós. É claro, isso remonta uma época de vida noturna mínima e de sociedades que entravam em letargia as 18:00 de cada dia para ressuscitar com o primeiro raio de sol (bunito isso, né?). Acho legal aquele conceito de que muito do que sabemos sobre os vampiros é o que ELES QUEREM que pensemos... Nisso, seria interessante para eles que nós nos víssemos protegidos pelo dia quando, na verdade, o perigo estaria bem perto...
Os vampiros que eu descrevi (falarei mais outro dia) apresentavam fraquezas muito menos exageradas que as mitológicas, mas interligadas. Por exemplo, eles não morriam no sol, mas teriam um pouco mais de problemas que o Hermeto Pascoal numa praia sem protetor solar... Não tinham horror a alho mas teriam uma bruta indigestão de teimassem em comer comida italiana... Então eu já estava preparado para os vampirinhos diurnos do Crepúsculo. Mas aquele efeito diamante... Absurdo, perfeitamente absurdo. Mais absurdo que jogar baseball numa tempestade, mais absurdo que o fato deles não dormirem nunca (muito idiota, isso, mas decorre de sua vida diurna), mais que a guria que vê o futuro ou o que lê mentes. Mais que o fracasso em ilustrar os conflitos internos do rapaz com mudanças bruscas de humor. Mas, vá lá, quem sabe no livro...
Claro, pontos positivos não faltam, o principal é a sutileza. A forma como é mostrada (ou omitida) a distância sexual, o "platonismo" da relação é relevante. Ou todo o contexto religioso/sobrenatural resumido em uma só frase ("...vou para o inferno, mesmo..."). Nada metafísico, poderiam ser mutantes, alienígenas, andróides, demônios e o filme funcionaria igual.
Temos que levar em conta que, com a avalanche de informação que temos na atualidade, não há lugar para os dilemas de 'Entrevista com o vampiro'. Lestat e seus pares viviam imersos na ignorância sobre si mesmos, não carregavam nenhuma tradição oral, sabedoria ancestral ou um tomo esclarecedor. Parecia a ignorância que muitos senhores vampíricos infligiam sobre suas crias para melhor manipulá-las no RPG. Os sanguessugas de 'Crepúsculo' são muito bem resolvidos, não há como comparar com a genial Anne Rice. Se vampiros fossem indianos, 'Entrevista' seria V.S. Naipalm, 'Crepúsculo' seria M. Night Shyammalan. Não é uma obra prima, mas quero assistir as seqüências...
Esquartejar e queimar parece um meio mais real que a prata do Blade para e exterminar um chupa-chupa. A prata, inclusive, que foi incluída na série Underworld, é um detalhe que mereceu ser omitido nessa nova encarnação de nosferatos. Embora no Underworld ela seja usada contra os lobisomens e num efeito que começa legal mas descamba pro kitsch, eu preferi que meus vampiros sofressem o com a prata o que você sofreria se tentasse cauterizar uma ferida com nitrato de prata puro (já vi isso e não é bonito...). Até porque é provável que esse mito tenha origem religiosa. Agora chupar o veneno é puro apelo. Mas fica difícil imaginar um clímax sem isso, afinal, o "vilão" foi muito maltratado pelo roteiro. Então, se pensarmos que o verdadeiro antagonista era confusa fome adolescente que o vampirinho sentia pela namorada, é... tinha que ser.
Mas, como disse, me fez pensar. Embora me sinta meio lobisomem, me identifiquei com o vampirinho. Com o romance, isso vende atualmente e quem, pelo menos uma vez na vida, nunca se apaixonou por alguém... do outro lado? Amores impossíveis sempre foram um tema fácil, de apelo quase universal. Afinal, é o meu caso. Me apaixonei e estou a 6 anos com uma fêmea de outra espécie. Não, eu não sou um furry zoófilo. Ela é humana, normal, meio entediada com a mediocridade que a prendia até bem pouco tempo atrás, e fica cada vez menos deslumbrada com um mundo de conhecimentos e percepções incríveis que eu chamo de meu mundo. Eu sou um... um sei-lá-o-quê que convive com a própria esquizofrenia como vocês convivem com o colesterol. Que divide seu tempo vago entre delírios de grandeza (como este texto) e os gatos, os únicos que me entendem (WTF?!).
Em resumo, assista 'Crepúsculo' desarmado, como eu fiz. Prepare-se para perder minutos da sua vida ou lembrar de questões que não estão ali. Como diria Will Smith na divulgação de 'Eu, robô', se quer pensar, ótimo, há boas questões em jogo, mas olhe quantas explosões e perseguições tem esse filme!



*Se não me engano, 'Underworld' foi traduzido em Portugal como 'Submundo', que além de ser uma tradução literal, expressa bem na língua de Camões o conceito de uma sociedade sob outra sociedade.

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