domingo, 1 de novembro de 2009

Visão de Mundo

Política, religião, psicologia, filosofia, materialismo, Cristo, Buda, kamis e deuses num balaio de gatos.
(É um texto enorme e confuso, já vou avisando...)


É inútil. Minha visão de mundo não explica nada...
Vocês sabem, eu adoro discussões sobre conspirações, mas devo admitir que é mais pelo tom kitsch de que somos todos bons e há forças ocultas provocando o mal no mundo. Eu creio no inverso. Somos maus por natureza, e digo isso da maneira menos maniqueísta que se pode aceitar. Maus como o predador que caça. Meus Deus, ele só quer viver! Não é um monstro, só quer se alimentar! Mas ele é um bad boy porque ninguém quer ser seu almoço. O medo de ter ele acima de nós na cadeia alimentar nos obriga a respeitá-lo.
Se um, digamos, um leão fosse racional, não obrigaria outros carnívoros menores a caçar por ele, sob a pena de ser devorado? Ou não? E se o leão, impressionado pelo seu poder, decidisse agir com a responsabilidade correspondente ao Rei das Feras? E se ele tivesse drama de consciência e pensasse "ninguém me ama, todos me temem"? Nesse caso, recomendaria a ele ler Maquiavel... Não. Melhor que ele siga o caminho que a ele foi destinado: a gazela come o capim, ele come a gazela. Há algo de mau nisso?
Não somos leões. Embora grandes gênios gostem de criticar valores éticos kantianos, eu sigo dizendo que a religião é o que nos separa das feras. Leitura infantil, mas gostava como Jonathan Swift retratava a natureza humana de querer ter mais do que precisa. O leão de nosso exemplo, assim como eu, pára a caçada quando sua barriga e a dos seus está cheia. Guardar provisões é coisa para ursos, castores e esquilos. É coisa para a comida. O leão, e nós o consideramos irracional, sabe que onde houver carne haverá vida. Vida pela morte. É como se tivesse lido Jesus dizendo "olhai os lírios do campo". E ele é a fera. E ele é mau. É dele que devemos ter medo. Não, não somos leões. Em nosso complexo de inferioridade, evoluímos na cadeia alimentar a um lugar seguro onde ficamos desprovidos de inimigos. Senão nós mesmos.
***
Sigo minha pesquisa sobre outras religiões. Não posso classificá-las em boas ou más como elas próprias fazem (as outras sempre são as más...), prefiro chamá-las de Naturais (primitivas ou antigas parece ofensivo), Modernas e Contemporâneas. Sendo que contemporâneo significa caos, o caos religioso de hoje que seria impossível aos pagãos medievais, aos hebreus antigos, aos zoroastrianos. Caos do qual faço parte. Há os que nadam cegamente no caos enxergando apenas suas qualidades. Há aqueles que o repudiam por um ou dois defeitos que pode execrar, mas carregam viva dentro de si a chama desse mesmo caos (sempre digo, por exemplo, que um dos maiores homens de fé é o ateu materialista — mesmo com fortíssimos indícios de uma realidade sobrenatural e subjetiva, são fundamentalistas em sua fé em que cada efeito tem uma causa...).
Eu preferi admitir minha ignorância. Em última instância, o que teólogos, magos e cientistas devem concordar é que "o que sabemos é uma gota, o que ignoramos é um oceano". Acho que é a única atitude correta. Posso citar exemplos rápidos dos dois lados: o projeto Genoma, que provou nossa ignorância (então nosso código genético é um grande vazio? Ou nesse vazio há algo que não compreendemos? — Não se esqueçam que a Matéria é um grande vazio, e a solidez é uma ilusão de ótica causada pela velocidade dos elétrons...); a Bíblia diz "o revelado é para o homem, o oculto é para Deus". Deu. Fim de papo. Nem a Ciência nem o Cristianismo nos permite mais especulações.
Gosto sempre de contar como os cientistas e matemáticos da era das Grandes Navegações diziam que um barco a vapor nunca atravessaria o Oceano Atlântico porque o carvão necessário afundaria a nau... Me esqueci a data, mas a prática provou que a teoria estava errada. Podemos crer no que quisermos, mas nunca impor essa crença a ninguém, porque mesmo quando há indícios, mesmo quando há provas, mesmo quando há leis, nós nunca saberemos as reais dimensões dos limites de nossa concepção. É arrogância tachar de ignorante quem prefere o mágico relato criacionista de qualquer religião, cheio de simbolismos morais, do que uma teoria tão cheia de incertezas quanto a da Evolução. Os próprios divulgadores dessa teoria (os europeus, porque os americanos são orgulhosos de mais para isso...) admitiram que, das duas explicações existentes, escolheram a Evolução em vez da Criação por eliminação.
Me estendi demais. Bom, dito isto, continuo minha pesquisa sobre outras religiões que não a minha, o Cristianismo, mesmo sabendo que 'cristianismo' engloba tendências tão adversas e contraditórias entre si que, se minhas pesquisas se dirigissem a detalhar essa variedade, ela seria muito maior. Meu atual dilema de reflexão é: porque Católicos e Protestantes (ambos cristãos) se matavam/matam na Irlanda assim como Muçulmanos e Judeus (ambos semíticos) no Oriente Médio se, por exemplo, no Japão religiões tão opostas como o Xintoísmo e o Budismo, mais do que conviver em harmonia, quase SE FUNDEM? Claro, sincretismo, mas BILATERAL (i.e., não como no Candomblé brasileiro que não é aceito pelos cristãos, os quais o influenciaram diretamente).
É claro, é uma comparação grotesca. Xintoísmo é uma coletânea não muito sistemática das crenças animistas de um povo conservador, como, por exemplo, a antiga religião grega. O Budismo, embora religião moderna organizada, tem quase tantas vertentes conflitantes quanto o Cristianismo. Quase. E, nesse caso, um lado cedeu (os xintoístas admitiram que os Budas poderiam ser encarnações de seus Kami, mais ou menos como muitas seitas ocidentais citam Jesus como um grande Avatar, o a encarnação de qualquer um de seus princípios divinos...). Mas mesmo assim, se não estou sendo claro, estou falando do valor humanístico das religiões. O que custava guardar os debates teológicos para os seminários e católicos e protestantes pararem a guerra em nome de Jesus? Por que judeus e muçulmanos não se abraçam dizendo "Isaac ou Ismael, somos todos filhos de Abraão"?
Mas, longe de meu desejo pacifista, não são as diferenças religiosas que movem as guerras. Estas são usadas, como sempre desde a Zoroastrita de Ninrode ou o Áton de _, como desculpas polemológicas para ambições políticas e econômicas. Aí os ateus batem nas religiões, mas não no Nacionalismo, por exemplo, que é outro valor também usado pelos mesmos fins. E é sobre esses fins, melhor, sobre vários outros meios justificados por estes fins que estou disposto a escrever.
Me estendi demais de novo. Olha eu aqui, que adoro baixar a lenha no maniqueísmo, defendendo a religião, área que ADORA mesmo ver seu diabo no quintal do vizinho...
Não se confundam. Eu acredito no Bem e no Mal, eu não acredito é no Bom e no Mau. Já comentei com alguns, queria lançar um livro intitulado "Onde Está Seu Diabo?", partindo da teoria de que todos nós imaginamos boas divindades, ou no mínimo justas e/ou indiferentes. Mesmo ateus têm a Razão, mesmo Budistas tem o Nirvana, há sempre um alvo, há sempre um padrão moral, que convencionamos ocidentalmente chamar de 'Bem'. Nossa tendência mórbida é de ver o mal no outro (e isso é habilmente explorado por líderes mal-intencionados...), então onde está o diabo deles? Não está o diabo dos evangélicos nos ícones católicos? Nos centros de Umbanda? Ou em uma infinidade de variantes que se torna a motivação para esta-ou-aquela corrente? (Estaria o diabo na pobreza? Na modernidade? Nas drogas?) O diabo católico não estaria na pílula anticoncepcional? Na camisinha? Sejamos mais amplos, no sexo? O diabo dos fundamentalistas islâmicos não se veste de vermelho, azul e branco (e não estou falando da França)? O diabo dos ateus não estaria no Vaticano? Ironia, o diabo da Igreja de Satã não está em Deus (ou na crença em Deus)?
Não foi à toa que citei a Igreja de Satanás e não os que dizem adoradores do demônio. Estes são só católicos com os símbolos invertidos, ou gente desorientada (influenciada pelos que falam em nome de Deus e agem de maneira pouco exemplar...). Há uns que provavelmente são doentes mentais. Inofensivos, na minha opinião. A dita igreja tem por base se opor (daí o nome) a todo o pensamento religioso. Eu, particularmente, acho que tirando TODO o pensamento religioso (inclusive o que se esconde na Ciência e/ou se disfarça de lógica) pouco sobra, voltamos a ser animais. Mas eu não havia dito que o leão deveria permanecer leão?
Mas nós não somos leões. E isso me leva a avaliar minha orientação política. Me considero 'Anarquista Utópico'. 'Anarquista' porque creio que qualquer forma de poder corrompe. E os que resistem, perdem o dito poder. É como se o poder só existisse para Deus/os deuses/o destino/o dharma/o sei-lá-o-que testarem nosso caráter. Então, bom seria esquecermos o poder e buscar outra coisa, a Felicidade, por exemplo. Mas quem manteria a ordem? Quero dizer, a natureza confere o poder do mais forte. Nós descobrimos o poder do mais esperto, do mais organizado, do mais bem informado. O que impede que aqueles que detém esse(s) poder(es) de usá-los da maneira mais natural (em benefício próprio) em detrimento ou em prejuízo aos outros? Pois é, por isso 'Utópico'.
Religiões, assim como políticas, exigem comprometimento. A Democracia não é confortavelmente impessoal? O que me impede de xingar, protestar e até "impeachmar" aquele em quem votei? Dizem a todo momento que o povo tem o poder numa democracia, mas poder exige responsabilidade. Responsabilidade exige comprometimento. E comprometimento, bem, é algo que nós queremos evitar. Não é mais fácil assistir um reality show no qual nos divertimos com situações de gente diferente da gente, em situações inusitadas, com reações previsíveis, que não nos levam a nenhuma reflexão? É claro, reflexão leva a conclusões, que levam ao posicionamento, que leva ao comprometimento, que leva à responsabilidade, que leva ao poder. Eu vivo a utopia de exercem alguma forma de poder sobre meus gatos e alguma forma de responsabilidade sobre minha namorada, nada mais. Mas sei que a vida vai me exigir mais. E meu posicionamento oficial já tá pronto, lá nos parâmetros da ética de boa vizinhança. Se eu vou viver a vida inteira sofrendo injustiças por não ter o MEU posicionamento, estou comprometido com quem? O meu posicionamento real precisa ser regido por algum norte, até mesmo o caos tem uma direção. E o posicionamento é sempre uma guerra, mas não guerras com armas e sangue, nem com palavras e ações simbólicas, mas com comprometimento. Parar em frente a um tanque é ação, ou posicionamento?
É loucura, alguém diria. É esse posicionamento, estar em frente algo, estar virado para o lado oposto do que algo está. Esse algo é o diabo que falei. Quanto mais imaterial for esse algo, mais profundo será meu posicionamento. Quanto mais genérico e abrangente for esse algo, mais confuso será meu posicionamento. Mas nem por isso menos válido.

2 comentários:

  1. Li e gostei!
    Tua mãe certamente se orgulharia d escreveres tão bm assim!
    Parabéns! Siga sempre assim: inspirado em teus "escritos".
    Abç.:)

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  2. "Tem gente que recebe Deus quando canta, tem gente que canta procurando Deus"(Agenor)
    Escrever é o que torna-a viva dentro de mijm, mesmo que seja uma ratiação destas...

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