este texto foi escrito por um evangélico desiludido
este texto foi escrito por um músico desiludido
é, talvez este texto tenha sido escrito por um músico evangélico desiludido
mas com certeza foi escrito por um observador da(s) cena(s) musical(is) em geral.
Estou no ano de 2009. Vi há um tempo atrás um comercial de uma banda brasileira (Na verdade ouvi. A TV fica ligada enquanto estou ao PC para ouvir o plantão de jornalismo comunicar a queda do avião que conduzia a banda Calypso ou outro forrozero/sertanojo qualquer). Um CD acústico. Ao prestar atenção em pedaços das letras disponíveis no comercial pensei se tratar de um unplugged de um pioneiro conjunto de Emocore. Como não suporto as habituais e baratas imitações de música estaduzunidense de qualidade duvidosa, nem prestei atenção. Foi quando eu ouvi o nome da banda.
Meu irmão perguntou, depois de algum tempo "a banda tal, do comercial na TV, aquele que tinha um feio da Malhação e outro de chapéu de cowboy, essa banda não é evangélica?". Sim. Era. "Como notou?", perguntei eu, esperava que ele me dissesse que as letras pareciam um tributo de amor a Deus ou que, pelo menos, cheirasse a religião. "Pelo nome", ele respondeu. Quem conhece a Bíblia conhece esse nome. Meu irmão não é crente, nem nada parecido, mas quem, em tempos de R.R. Soares, não conhece um dos títulos divinos extraído do Cântico dos Cânticos?
Não, não vou fazer publicidade gratuita dizendo o nome da banda. Embora quem prestou a mesma atenção que eu (o que não é difícil) e está de alguma forma por dentro do cenário dantesco que quero pintar já sacou.
Como sempre, um fato bobo, uma observação frugal, um filme, uma música, qualquer evento banal me faz refletir. Acho que isso é humano. Espero que eu não seja o primeiro nem o último a chegar a essa conclusão: Não há mais musica evangélica.
É inútil dizer que já fui um ativo músico desse meio (meio onde os músicos em geral sofrem, quem se dá bem são os cantores...), ou ficar dissecando as subdivisões mercadológicas e/ou práticas da dita música gospel. Acompanhem meu raciocínio:
Todo e qualquer grupo mais-ou-menos fundamentalista (e isso não é ofensa, não quer dizer 'terrorista') tende a ter dificuldade para aceitar o novo. Isso é natural. Assim, a jovem Igreja de Cristo brasileira tinha dificuldade para aceitar um desenvolvimento próprio e genuíno da música dentro da própria Igreja. Quem trilhava esse caminho de evolução era tratado como se estivesse importando música do mercado fonográfico não-"gospel" (chamado geralmente de "o mundo"). Tudo bem. Nos Estados Unidos, esse tipo de evolução gerou espontaneamente o que se chama geralmente de Gospel, um estilo musical muito próximo dos ditos ritmos "negros". Com certeza têm origem comum e provavelmente iam se influenciando mutuamente até chegarem em estilos bem definidos. Gospel é um estilo musical sólido, influenciando o rock, o country, o pop, e vários outros estilos. Da mesma forma o Blues, o Soul, o Funk (de verdade, não esse lixo carioca) também marcariam presença em outros estilos. Quero dizer, não é só a letra que os diferenciava. Embora a tradição vocal do Spirituals esteja em todos estes ritmos, é no Gospel que ela se encontra mais forte. A essência do Spirituals, mais que a criatividade imensa que possui, é ser EXTREMAMENTE EXPONTÂNEO. Quer ocasião mais expontânea de inspiração do que devoção religiosa?
Voltemos ao Brasil. É engraçado mas real, houve uma época em que a Igreja brasileira torcia o nariz (quando não condenava explicitamente) o Gospel norte-americano. Mesmo na minha igreja, fundada nos EUA e trazida pra cá por suecos, éramos caipiras xenófobos. Isso parece crise de identidade, não é? Mas, então, se nós criticávamos o único estilo musical que havia nascido dentro de uma igreja evangélica, qual era a nossa música? Não tínhamos música?
Tínhamos. A 1ª conclusão a qual cheguei foi que não é tanto xenofobia que move o mercado gospel, ao contrário do que costuma-se afirmar nos inflamados discursos facilmente confundidos com pregações. É mais NEOFOBIA (segundo o Aurélio, "Medo patológico de coisas novas; cenofobia, cenotofobia"). Tudo que era novo era ruim. Logo, coisas boas eram coisas velhas. A igreja seria a "lata de lixo do mundo".
Tá, essa é a primeira conclusão, mas como cheguei a ela? Observando a forte tendência de botar letras evangélicas em estilos musicais que estavam "out" no mercado fonográfico. Exemplo, mesmo em capitais se ouvia nos templos letras inspiradas na Bíblia e bobagens folclóricas igualmente cravadas em estilo sertanejo, estilo de raiz, autêntico, que hoje, para se diferenciar do "sertanojo" das duplas macaqueadas, chama-se de 'caipira'. Isso na época pré-Chitãozinho-e-Xororó (hoje se faz o mesmo com este nojento caipirismo comercial das duplas de nome cada vez menos originais). É interessante que na explosão da contra-cultura, a música de igreja começou a lentamente se bolerizar. Quando da chegada tardia do movimento punk ao Brasil, começou a aparecer uns solinhos de guitarra meio Bill Halley nas introduções e interlúdios das canções de estúdio evangélicas. Na época em que me converti, achava estranho os tristemente chamados "hinos de fogo" serem, na verdade, verdadeiros forrós nordestinos, tocados com tal fidelidade que assustava alguns músicos aqui do Sul. Quando o samba enfrentava a pior decadência da sua história, antes da fase relativamente boa que dura até agora, ouvimos sambões na igreja. É obvio que o tradicionalismo se mantém mais-ou-menos constante aqui no Sul, então nem vou criticar os tristes plágios da música gaudéria e da tchê-music que certos pseudoartistas se especializaram, embora fossem mais fortes antes de artistas gauchescos começarem a gravar com bons selos novos, coisa de uns anos atrás. Com o "mundo" dançando o maldito funque carioca, ou se quebrando a pau em shows de rock, ou tomando banho de urina com tinta vermelha (achando que era sangue de porco...) em show de black-metal, ou se drogando até morrerem em raves, o espaço para o dito "rock cristão" estava aberto.
Quero deixar claro. Sempre houve variedade musical no mercado fonográfico gospel. Certas bandas de rock cristãs fizeram muito bonito e arrebanharam fãs em turnês mundo a fora com bandas muito opostas, sem serem necessariamente ligados ao famigerado white-metal. Eu sempre curti a antiga 'coragem' da Aline Barros (antiga; mais que decadente, hoje ela é ridícula) e de seus congêneres em tocar em usar estilos até então proscritos em uma-ou-outra faixa de seus CDs. Estou falando na música que se toca DENTRO DAS IGREJAS, com velhos pastores aprovando e as beatas de Jesus levantando a mãozinha. É nessas circuntâncias que um estilo musical só será aceito se for velho.
O rock cristão, longe da doideiras com/sem qualidade estilo Oficina G3 em início de carreira, só seria aceito se fosse pasteurizado. Já fazia muito tempo que haviam, nos CDs, letras ambígüas, para que os roqueirinhos de Cristo pudessem ouvir sem se comprometer. Tipo o clássico exemplo “O Tempo”, da Oficina G3, e várias outras faixas no disco homônimo. Dava pra dizer que os "teus braços" podiam ser de qualquer um, de Deus (como se supunha), da namorada, de uma amante, até de Satã, pra exagerar um pouco. A única informação é que nesses braços “não importa o tempo; só existe o momento de sonhar”. Mas não quero falar de letras. Esse rock meloso, esse estilo que Kurt Cobain chamaria de frouxo (i.e., estilo Extreme) seria o escolhido para adentrar as portas da igreja e fazer os velhinhos engravatados enlevarem-se na letra. Feliz ou infelizmente, não aconteceu muito assim. O rock-gospel sempre viveu à margem dos fenômenos pentecostais/neopentecostais, talvez por falta de coragem dos músicos ou do eterno preconceito criado pelos próprios roqueiros que o diabo é pai do rock (Falaremos sobre o pseudo-satanismo do rock em breve...).
Ou é possível que minha teoria esteja errada. Talvez evangélico e caipira sejam sinônimos (já que “sinônimo de amor é amar”...). Será?
Não. Dois pontos fortes não me deixam desanimar. Um é que, por outra via, o rock entrou na igreja. A “música de comunidade”, aquelas com um panteão de vocalistas, sempre um coral (nem sempre muito grande) e um incomum exército de músicos, normalmente gravadas ao vivo, não tem um estilo musical muito fixo. Vai do louvorzão ao funky e, eventualmente, rock. Comuns desde sempre (não se esqueçam que a Comunidade da Vila da Penha foi que lançou Aline Barros, e não o contrário), em ápice na época da minha desilusão, esses grupos tem a liberdade de não fazer parte oficial de nenhum ramo evangélico formal, o que permite boas experimentações em várias áreas (de trabalho social a música) e também distorções teológico-morais que as descaracterizam como Igreja. Mas é de música que estamos falando, e esses conjuntos, carros-chefes da divulgação da dita comunidade, tem o fantástico mérito de revitalizar a música-música, dando importância à parte instrumental das canções, e a virtuosidade dos músicos. Só não os as intitulo “a salvação da música gospel” pela baixíssima qualidade das letras (tanto poeticamente quanto ‘doutrinariamente’) e a falta de originalidade de certos arranjos. Como disse, no momento em que bandões que acompanhavam os artistas, especialmente os de soul music, se tornaram onerosos frente ao playback (maldição da qual falarei em outra ocasião), a igreja incorporou-os ao seu repertório, repetindo sempre os mesmos riffs de metais e as mesmas bases de acordes abertos do antigo e original funk, do qual o ‘mundo’ nem se lembra (minto: a banda Funk Como Le Gusta é maravilhosa!).
Mas o rock, em alguns casos com um rápido prelado salientando a "mentira da paternidade diabólica", às vezes com mais timidez, entrou no repertório dos que cantam em igrejas.
Ponto pra minha teoria.
O outro ponto é: onde foi parar aquele rock frouxo e pasteurizado que os roqueirinhos de Jesus ouviam na minha época? Resposta: VIROU EMO!
Me faltam dados para uma afirmação mais profunda. O que eu sei sobre o Emocore (Emotional Hardcore) é muito pouco além de exemplos horríveis de imaturidade musical como Simple Plan, ou de desespero comercial como Green Day. Até me pergunto como bandas que seguiam uma cartilha besta mas sincera de punk-rock desembestaram pro Emo. É obvio, pra vender. É claro, estamos falando de Brasil, e o que vejo são (pré-)adolescentes de maquiagem questionável e penteados ridículos se dizendo emo e ouvindo também High School Musical (ou pior: Maria Cecília & Rodolfo!). Não quero falar dos fenômenos sociais da adolescência. Eles vão crescer e, como os hippies, os punks e todos os outros, vão ser engolidos pelo Sistema. Agora, essa musiquinha...
Letras fracas, não só quanto à temática sentimentalóide (muito da boa poesia musical tem esse tema), mas mal estruturadas gramático-poético-foneticamente. Parecem que recortaram frases de revistas de 1,99 e, por sorteio, foram ordenando-as em cima dos mesmos acordes de qualquer musiqueta pop, só que com um 'pesinho' que dá a ilusão de que é rock. Vale para o instrumental a “regra White Stripes”: um cara que sabe tocar guitarra faz sozinho o que 4 meio-músicos não fazem. Frouxos. Pasteurizados. Coincidência?
É claro, como disse, não posso afirmar que o Emo brasileiro é formado de ex-roqueiros gospel, até porque a idade não bate. Mas que aqueles pulhas bateram tanto no nosso ouvido que, mais cedo ou mais tarde, teríamos que aturar mais essa.
Mas de uma coisa tenho certeza. Quando não houver mais franjinhas chapadas, essa música vai para a igreja. E tenho medo de ir lá nessa semana e ver a Amy Lee cantando algo sobre o mar vermelho...
No próximo capítulo: por que bêbados, prostitutas e travestis gostam tanto de cantar "entra na minha casa/entra na minha vida/..."?
P.S: Fiz questão de não citar hinários congregacionais, como a Harpa Cristã de minha igreja, cultuada até hoje como "um cancioneiro sóbrio e sacro" por ser ridículo argumentear contra a santidade de versões para "On the sea", "Aloha Ouei", e hinos pátrios com da Inglaterra, Rússia e Espanha, além do famoso "Hino dos republicanos"...
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