Ou: Meio-caminho de uma aventura polissêmica.
(sim, dose dupla)
Outro dia, uma jovem colega, a quem respeito muito (é uma pessoa inteligentíssima e altamente politizada), discursava informalmente sobre a característica única da língua portuguesa, uma polissemia de contexto sem par. Não nesses termos, que são minha ™. Como me é normal, se não tenho uma informação lacônica para contrapontear, fico quieto, sem concordar ou discordar. Mas aquilo me soou como um disparate monstruoso. Eu estava (e ainda estou) estudando japonês, uma língua de polissemia de contexto tão forte que você pode ficar completamente perdido se não tiver o mínimo de noção sobre a cultura dos japas (por exemplo, os honoríficos) e do contexto no qual a língua é usada (como no português, e suponho que deva ser igual em todas as línguas, um diálogo coloquial entre estudantes e um tratado filosófico de um ancião usam linguagens BEM diferentes). Eu apenas ressaltei o que ouvi uns 300 lingüistas¹ afirmarem: o português tem uma sinonímia oblíqua, quase neoplasmática. Coisa que eu já sabia desde a infância, lendo traduções de Kafka da década de 70 que pareciam (intencionalmente) escritas num português da época de Camões.
Mas voltando a minha estimada e perspicaz colega. Ela usou o exemplo palavra "f0da". Eu admito que o contexto pode dar sentidos até mesmo opostos a essa palavra. Além da óbvia sexual, pode ser desde um expletivo neutro até objeto de sentido completo, ainda que oposto (compare um headbanger extasiado dizendo "Metallica é f0da" com um desanimado desempregado suspirando "falta de experiência é f0da"). A afirmação dela continua a ser perfeita. Mas afirmar que isso é uma particularidade da língua portuguesa é no mínimo ingenuidade implantada via educação (olhem a qualidade do nosso inglês de ensino médio, e não só do público....), e na pior das hipóteses (tenho certeza que não é o caso de minha colega) uma semente de ufanismo.
Por coincidência ou não, algum tempo depois esbarrei naquele maldito site (vocês sabem, ele tem colaboradores de todo o mundo, mas é em inglês e ponto) com uma discussão sobre a polissemia de contexto da palavra "fuck". Seria o correspondente cultural de "f0da", já que possui as conotações sexual, expletiva (fuck yeah!), negativa (como um "screw" mais agressivo) ou positiva ("fuck yeah!")? Pra falar a verdade, muito mais desbocados que nós, os americanos usam "fucking" como um adjetivo de ênfase omnipresente, que só não é usado nas igrejas e nos tribunais (talvez). Diria que, surrado pelo uso, "fuck" acaba tendo mais sentidos que "f0da".
Isso pra falar em inglês, língua falada pela nossa atual "metrópole". Poderia, sem sair do ramo do linguajar relatado mas não restrito ao sexo citar que "iro", "cor" em japonês também é usado com sentidos de "aparência" e "sexualidade". Não é a toa que o kanji 色, longe de ser o mais polissêmico, é usado nas palavra "classificação" (色分け), "novidade" (異色), "reprovação" (難色), "cenário" (景色), "busca específica" (物色), bem como "luxúria" (好色), "affair" (色事, e seu derivado 色事師, o nosso "garanhão"), e o meu par de palavras favorito: "irootoku" (色男, literalmente "homem de cor", ou "das cores") que significa um cara sexy, "que pega todas", e "danshoku" (男色, literalmente "cor masculina") que significa, digamos, sexo entre homens (digamos que o equivalente² unissex também significa quando um carro bate violentamente na traseira de outro). Note que os dois caracteres são os mesmos, apenas foram invertidos.
Gostaria de conhecer mais línguas do que o pouco punhado que conheço. Poderia dar exemplos melhores. Também gostaria de ter mais espaço. Poderia dar exemplos melhores. Sei que deveria aprender coreano. Isso me ajudaria nas minhas pesquisas de gênero. Mas isso é assunto para um outro post. No entanto, sei que TODO o ser humano sempre fará uso particular de sua língua, de forma reta ou oblíqua, de maneira a criar as sutilezas em uma linguagem específica dentro dessa língua, linguagem oculta para aquele que tem apenas rudimentos dessa mesma língua. Continuaremos achando que somos f0da, e os gringos vão continuar don't giving a fuck por nós e o japas, 彼は難色を示した.
Mas isso é a ponta do iceberg visto por um bêbado míope de um olho só num barco em mar revolto a muitas milhas do dito iceberg. Eu ouço pessoas de outros estados reclamando do ufanismo, freqüentemente racista, que os gaúchos demonstram quando vão morar em outros estados. Creio que nós gaúchos somos brasileiros, afinal, exceto que não exaltamos o Brasil ou a mais jovem e desbotada flor do Lácio, como parece ser a voga nacional. Nós, brasileiros, compramos os valores gringos, nos apropriamos deles, "canibalizamos" (no melhor sentido modernista) se você preferir, e depois nos sentimos muito mais f0da que eles por isso. Em todos os sentidos.
Obs:
¹300 lingüistas é uma hipérbole. Se existem 300 lingüistas no mundo, não conheço 10%.
²Okama wo horu (お釜を掘る), literalmente "cavar o potão" ou "enfiar no caldeirão", além de significar exatamente o que você pensou, também é usado para colisões de trânsito que danificam a traseira de seu carro. Pensando bem, faz sentido.
segunda-feira, 9 de janeiro de 2012
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