Ou: "Oxímoro enlouquece com o peso da responsabilidade de existir e decide respeitar a tudo e a todos incondicionalmente"
Oi! Eu sou o Anarca!
Às vezes sento no concreto que cobre a ignomínia e contemplo o que há para ser contemplado, não só o umbigo. Penso na existência. Penso que a vida é a proverbial rapadura, e a minha é de a palha, genuína. Com amendoim. Às vezes. Mas ninguém vive uma maria-mole, ou fel, ou chimarrão. Nem tudo que existe um dia viveu, também. Nem todas as coisas verdadeiras existem, nem todas as coisas que existem são verdadeiras. A vida talvez seja assim.
Vida? Vida é um fenômeno efêmero, passageiro, e, segundo um certo rapaz azul em seu momento mais indiferente, é também um fenômeno supervalorizado. É rápido e cheio de incertezas como a posição no tempo de um elétron. Se é boa, carpe diem, ela vai acabar logo. Se é ruim, não se preocupe, daqui a pouco passa. Mas sua existência é diferente.
Você pode pensar que estou falando de vida-após-a-morte, ou qualquer outra questão metafísica. Bem, por amor ao argumento, também estou falando exatamente daquilo que você acredita, e nem perto daquilo que você não acredita. Mas não é sobre esse ponto de vista que quero tratar. Estou falando de algo facilmente negligenciado por irresponsáveis e ensurdecedor para criaturas de pensamento atemporal: existência histórica.
OK, se você está lendo isso, você está vivo, isso é um fato (meus vídeos são bloqueados na Alemanha e meu blog, no além). Logo, você também existe, mesmo que não pense. E você modifica o meio que te modifica. Você interage com seres e coisas a sua volta, e eles interagem com você (redundância sincera, mas enfim). Sua existência não acaba com a morte. Talvez sua morte seja a maior (mas talvez não a última) interação pela qual você seja responsável. Afinal, se todos se importaram com ela, se ninguém deu um caracol por seu féretro, bem, não há quem culpar senão você. Longe de começar com sua morte, sua responsabilidade pela sua existência passa de seus pais para você em um ponto indeterminado entre seu nascimento e a perda de sua virgindade (tendendo a primeira baliza, é óbvio). Talvez.
Não é metáfora que todos aqueles que tiveram parte de sua vida documentada de alguma forma que resista ao tempo ainda existem. Não sua obra. Livros se queimam, filmes e discos também, dados se formatam, palabras se traduzem ou perdem sentido. A essência, qual um fantasma, reside na mutação e, por mais diferente que venha a se tornar, não se tornou o que se tornou por mágica, ou por circunstância, e sim por propriedades de sua própria natureza. É tão fácil afirmar que, publicada a obra, o autor está morto. Não deveria ser fácil também aceitar que, quando ele de fato morrer, a única diferença é que um dia acabarão as obras póstumas de qualidade duvidosa? Ele continuará existindo, influenciando, ainda que de formas não previstas por ele mesmo, gerações após a publicação de sua oevre, até que um dia seja esquecido, ou não, mas o mundo mudou, e ele teve sua parcela de culpa nisso, ínfima ou ciclópica, e por ela respondeu durante sua vida, se foi responsável, com o peso de contemplar a existência.
Tá, baixemos das estrelas para os caramujos. Eu. Você. Você existiu, então em pelo menos algum ponto do tempo você existe. A mais mera lembrança, menção ou conseqüência desse pensamento é a prova real de que sua existência não cessou. E mesmo que não possa ser provado, você interagiu, você modificou o meio. Sua cara feia ou o seu sorriso ajudaram a fixar ou mudar o comportamento de alguém. E esse comportamento, tal qual o seu, ttambém influenciou outra(s) pessoa(s), se não o próprio autor do comportamento ou o meio no qual ele está. E você também.
Antes de enveredar pela discussão do quanto há de verdade e o quanto há de pura anancefalia ao redor do conceito de efeito borboleta, pense em coisas simples, e em resultados simples. Pode não parecer, mas as pequenas coisas têm resultados, nem sempre proporcionais, naqueles e naquilo que sequer percebe a existência dessa pequena coisa. Não, não são as grandes coisas que movem o mundo, mas a grande soma das pequenas, mais índimas, coisas. Não vemos o resultado prático disso no cotidiano, é contra o senso comum, como a inércia. Ou como quando você diz "o sol está nascendo" sem ser um chato de galocha corrigindo a dita frase porque não foi de um ventre que o sol veio naquele momento, ou que tampouco sua existência se iniciou nesse mesmíssimo momento que você perdeu por procurar correção literal de uma metáfora amplamente aceita.
É claro, pra teorizar isso, precisaríamos utilizar a lógica oxímora de que duas coisas opostas e reciprocamente excludentes podem ambas ser plenamente verdade em uma mesma circunstância. E mais, se isso for observado, é muito provável que eles sejam geradas uma pela outra, ao mesmo tempo em que são definidas por você. Não há contradição entre elas, há na definição que você deu a elas. Precisaríamos aceitar que não importa se o gato está morto ou vivo ou ambos ao mesmo tempo. O gato existe. Ou não. Ou precisaríamos de senso de conciliação, que é mais fácil.
Tá, então eu estou dizendo que devemos ser paranóicos super-responsáveis meticulosamente preocupados com o resultado em efeito dominó de cada um de nossos suspiros? Não! De modo algum! Primeiramente por que isso é simplesmente impossível. Segundamente porque há coisas no universo que você precisa aceitar, você não pode mudar e não pode sentir-se responsável por elas, mesmo que seja, simplesmente por que seria contraproducente. E terceiramente porque, tal qual toda minha filosofice, estamos sempre trabalhando com o worst case scenario, a pior das hipótese. Como treinar artes marciais na sala de gravidade aumentada para quando você estiver em condições favoráveis tirar de letra. A busca da tranquilidade do overkill metafórico. Na prática, aceitar sua responsabilidade mesmo sabendo que não pode fazer nada a respeito o tornará mais tolerante com o que não lhe diz respeito e mais ativo na construção do que está ao seu alcance direto. Você não precisa aceitar isso, ninguém exige isso de você. Mas vou deixar aqui em cima da mesa quando sair caso você mude de idéia.
OK, você gostaria de ter três braços? Se gostaria, bem, substitua por algo que não gostaria. Mas se não, imagine que seja esperado de um deus que controla seu destino, ou da sorte, azar ou da simples aleatoriedade, que tenha 3 braços. Se você não quer pra você o fardo (ou as vantagens) de ter três braços, porque você exigiria isso de alguém? Assim é a existência. Não é coerente exigir responsabilidades que eu negligencio tanto quanto não ME é coerente exigir que algo exista para ser verdadeiro. Pode até existir, mas não se toca no assunto. Exalte-se o que há de belo e verdadeiro nisso e não questione sua existência. Isso é rude, é como revirar o lixo de alguém ou pôr uma câmera escondida no quarto desse mesmo alguém. Ou de outro. O ponto é que você é responsavel por suas ações e também por suas reações, porque elas também terão reações. Não com as ações do outro que geraram sua reação. Isso é responsabilidade dele, não sua. Você pode escolher perpetuar o ciclo, atitude gerada por algum motivo que o levou a fazê-lo, o que não te exime de responsabilidade, e passível de conseqüências que ecoarão anos depois de sua morte. Ou, de forma inversa, quebrar o ciclo, atitude gerada por algum motivo que o levou a fazê-lo, o que não te exime de responsabilidade, e passível de conseqüências que ecoarão anos depois de sua morte. Qual a diferença? "Viva como o perdoado, meu filho".
sábado, 18 de fevereiro de 2012
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