domingo, 1 de novembro de 2009

Um dia de cão

Isso tem a ver com minha teoria nada original que avalia a personalidade humana com base em arquétipos de relacionamento com seus pets, ou algo assim. Se gosta de cães e gatos, leia. Se odeia cães e ama gatos, leia. Se odeia cães e gatos, leia também. Se odeia gatos e ama cães, morra.

Era um dia normal, com qualquer outro. Provavelmente uma quarta-feira. Nada de excepcional aconteceu naquele dia. Um dia 'bonito', ensolarado, um calorzinho gostoso incomum ao mês de julho.
Acordo perto do meio-dia. Acordo tarde porque dormi tarde: os dois cães machos do meu irmão latiram a noite inteira em resposta aos outros latidos longínquos. Conheço esses latidos longínquos. Já foram para mim. Qualquer transeunte à noite dispara essa rede de latidos, formando algo como aquele "olé" num estádio de futebol.
(...)
Vou até o portão da frente verificar a caixa do correio. A cadela que meu irmão cria em sua casa late pela janela pra mim como um exorcista vendo um belzebu. Feroz, dá a impressão que está defendendo seu território contra o cara que ela conhece e que todos os dias passa pela mesma janela, diz o mesmo "cala a boca" e volta para seu buraco nos fundos. Ela deve se sentir triunfante: Espantei ele de novo! Estranho que quando entro na casa do meu irmão, ela se esconde embaixo de uma cama. Estranho porque é uma enorme pastora adulta. Estranho porque nunca apanhou na vida. Tão estranho que, quando nos vemos ao ar livre, eu simplesmente imito o rugido de um cão e ela foge em pânico.
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Limpo a caixa de areia dos meus gatos. Também tenho dois machos e uma fêmea. A areia está úmida demais, no dia anterior choveu e eles passaram o dia dentro de casa. Como o cachorro maior e mais inteligente de meu irmão cava buracos muito fundos que, quando chove, criam um fosso ao redor da área do animal acorrentado, imagino que a areia dos gatinhos, todos os dias um pouco, pode tapar esses buracos. Para o cão, isso é uma festa. Ele rejeita seu prato que ainda tem arroz com carne para cachorro misturado com ração. Saltita alegremente como qualquer cão faz quando ansioso. Revira a areia dos felinos que eu derramei e, encontrando os pequenos dejetos sólidos, os devora.
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Cães latem por qualquer coisa. Quando meus gatinhos eram filhotes, não dispertavam atenção. Mas agora, sequer lembrar que eles existem é suficiente para aquela choradeira desesperada. Bons cães de caça não fariam isso.
O gato do vizinho em cima da caixa d'água, a mais de 20 metros de distância, é motivo para um cão se achar o arauto do Apocalipse.
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Não tenho Internet em casa. Vou a Lan House. Já aproveito para comprar ração de gato e pão para o café. Ao sair, a cadela mais uma vez toca a sirene. O estranho é que meu irmão ralha, não incentiva.
São 3 quadras e um pouco para chegar a Lan. Na primeira, passo por um grande mercado. Estranho que, num lugar tão movimentado, eu tenha que olhar para o chão o tempo todo para não pisar em bosta de cachorro. Eles são muitos, têm a mesma displicência dos clientes do mercado.
Na segunda, há um salão dos Testemunhas de Jeová de um lado da rua. Do outro, uma casa pré-fabricada e uma oficina mecânica. Entre esses dois lotes, um possui uma contrução inacabada, abandonada. Vejo 3 ou 4 gatos ali. Um deles, preto, me parece o irmão dos meus, que fugiu. Se for ele, estou feliz e tranqüilo. A casa de madeira, embora nova, deve ter seus roedores. Do outro lado dos jardins do Salão do Reino há um alagadiço campo baldio. Os gatinhos, como sempre, tiram seu sustento do ofício de baluarte contra as zoonoses.
Terceira quadra. Um enorme cão, preto e sarnento, toma sol na grama junto ao muro de um senhor idoso. É enorme esse cão, imagino que estrago não faria sua mordida. Parece manso, mas lembro que eu voltarei por aquele caminho com comida... Um outro, bem menor, esse pode começar a briga. Os baixinhos são sempre os mais invocados.
Uma menina brinca com seu gatinho, um filhote amarelo. Ela parece se divertir e sentir repulsa ao narrar para os irmãozinhos o que o animalzinho faz com o buraco que cavou na areia acumulada junto ao meio fio.
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Ao sair da Lan House, preciso fazer uma volta maior que a necessária para chegar ao Pet Shop que fica na mesma quadra. Preciso porque uma cadela no cio provoca a briga entre três cães, dois deles grandes. O dono de um deles aparta, enxotando os outros.
Na Pet Shop, uma gorda e velha gata sem um pedaço do rabo dorme sobre os sacos de ração. Eu a acaricio como de costume, ela corre para perto das rações. Sabe o que vim comprar. Sabe o que vai ganhar. Lembro que ela, num domingo de manhã, antes da petshop abrir, ela, que aguardava na porta, atravessou a rua e veio miar pra mim, como se pedisse algo.
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Esta rua é estreita, mas ainda passam carroças. Carroças, cavalos, bosta. Esporadicamente estacionadas em frente uma ferragem, deixam ali seu cartão de visita. Ás vezes são muitos e brigam, mas hoje são poucos os cães que comem essa bosta. Estão limpando a cidade!
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Estou quase chegando em casa. Vejo um cão preparando a posição. Ele vai cagar em frente ao meu portão, com se estivesse escrito toillet nele. Corro e tento espantá-lo. Que vão! Eles fazem isso o tempo todo.
Janela, cadela, esparrela, ladainha.
Um de meus gatinhos vem correndo. Pode parecer hospitalidade ou saudade, pode ser, mas acho melhor pensar que sabem o que há na sacola.
Os dois se aproximam da porta. O que estiver mais perto estende a patinha em direção a maçaneta, como se soubesse que a chave que pus ali é o que precede a abertura. A fêmea, que dormia tranqüilamente dentro da casa, agora também se empolga com os irmãozinhos.
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Acabou a narrativa. Agora, a panfletagem.
Gatos são como seres humanos. São amigos, companheiros, carinhosos. Mas sei que não posso contar com eles. Como os seres humanos, eles falham quando mais precisamos. Eles, os humanos e os gatos, não estão errados. Primeiro, o lado eles. Dependendo da educação do ser humano e da índole do gato (ou vice-versa), o lado deles pode ou não ser conflitante com meu. Interesseiros, talvez. Adoro citar que meus gatos pedincham enquanto cozinho, mas respeitam enquanto como.
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Cães são escravos. Os mais inteligentes (leia-se adestrados, treinados) agem como idiotas, atendendo sem critérios e cegamente a comandos predefinidos. São tolos úteis. São incompetentes confiáveis. Bobos alegres. Máquinas de morder. São produtivos. São escravos, brinquedos, armas, tudo menos amigos. Os de rua são um problema de saúde pública. Nojentos. Repulsivos.
(...)
Um gato você conquista. Um cão você convence. O gato divide o espaço com você. O cão te protege porque você está no espaço dele. O gato mantém sua individualidade mas sempre interagindo com você. Os cães são maniqueístas, ou te lambem ou te mordem. Muitos gatos (como um meu) parecem satisfeitos simplesmente em estar perto de você. E você gosta de ficar sujo com a "festinha" que seu cão faz quando você chega...
Indico gatos para pessoas bem resolvidas, que tenham facilidade para ter relacionamentos com grande liberdade com os outros seres humanos, do tipo "discordo de você, mas continuamos amigos".
Recomendo cães para pessoas inseguras, possessivas, dogmáticas e com mania de controle. Eles vão manter você na ilusão de que te amar se resume a não ter personalidade própria. Ah, e para cegos. Gatos são péssimos guias....
E nem citei que gatos são limpos. Cães se resumem a MERDA.



as reticências entre parênteses denotam atemporalidade.

A narrativa é verídica. Pode não ter tudo acontecido no mesmo dia, mas, se tivesse, ainda assim seria um dia normal.
Para maior veracidade: a Pet Shop é na verdade uma agropecuária/ferragem/ex-lan-house que vende também coisas para pets; a história da menininha que descobre porque os gatos cavam ocorreu em outro lugar, bem como os cães comendo cocô, que ocorreram em muitos outros lugares; uso areia comum na bandeja dos gatinhos; não os comprei, adotei a mãe deles e, quando ela foi, eles ficaram.

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