Ainda lembro de uma piainha que alguém me mandou por email. Mostrava o Papa-Móvel, com seus vidros blindados, e trazia escrito "Porque, ao contrário do seu Deus, as balas são reais", ou algo do gênero. Confesso que ri.
Pensando melhor, não cometi nenhum pecado ao rir. É provável mesmo que as balas sejam mais reais que um deus incoerente, que consegue condenar no mesmo golpe a camisinha e o aborto. Um cara que compra briga com todo mundo como o Papa (não um homem em particular, como o Ratzinger ou o Wojtila) deve temer mesmo essas balas acima de seu deus. Porque Deus, pelo menos o meu, não seria injusto de proteger um cara nesse posto.
Meu Deus não é corrupto. Muitos podem ligá-lo a um conceito judaico de um Deus iracundo e vingativo, mas a coisa não é bem assim.
Todo mundo escolhe um deus por afinidade, e se chama filho dele por crer que terá certo apadrinhamento celestial em questões metafísicas. E, no caso católico, os santos padroeiros (sinônimo de padrinho?) entram na mesma categoria dos deuses pagãos: na mesma religião podem haver pessoas com devoções diferentes, até opostas. Sobre a irracionalidade do culto aos santos vou falar em outra ocasião. Vamos nos limitar a Deus.
A grande maioria alenta uma idéia de um deus bonzinho, pronto a entregar qualquer coisa para quem o servir, ou cumprir determinadas regras mágicas. Eu faço promessa, voto, jejum, simpatia, macumba, oração forte, reza braba, e então a divindade é obrigada a me atender. E duvidar disso é falta de fé, não é?
Não, não é. Pelo menos o meu Deus, pelo que pude depreender da Bíblia, é, sim, um deus bondoso. Amoroso é palavra mais apropriada. Mas também justo, porque amor e justiça se opõem e se completam no melhor estilo taoísta.
Traçando um bom paralelo com um pai: um bom pai é aquele que dá tudo que quer ao seu filho? Se nós somos unânimes ao dizer que um pai que assim proceda vai estragar seu filho, gerando um adulto mimado e corrompido, por que não achamos o mesmo sobre Deus? Como uma criança que ainda não entende a vida pode achar uma sábia atitude de seu pai bastante injusta, assim somos nós, reclamando que se Deus fosse bom não haveria mal no mundo. Um bom pai é justo. Ele ouve seu filho, mas nem sempre o atende. Ele tem que pensar nos outros filhos, na mãe, na lei, e em todos os envolvidos, inclusive a formação moral do filho em questão.
Outra comparação: os judeus da Antiguidade, os católicos da Idade Média e muitos evangélicos triunfalistas de hoje se apegam ao "te pus por cabeça e não por cauda" e acha que os que servem a Deus devem ser os reis do mundo e os donos da verdade. Dessa forma, imagina-se que, tal qual gente da estirpe do Sarney vive empregando sua parentela, da mesma forma Deus, quando vagar uma posição metafisicamente relevante, procurará um de seus filhos. De preferência o mais "necessitado" (leia-se "vagabundo") é o mais cotado para a posição de profeta ou outra coisa do estilo. Meu Deus, ao contrário, conhece o currículo dos candidatos, e pode até realizar concurso (se lembra de Jó?).
"Chove sobre os justos e os injustos". A chuva é benefica para uns, prejudicial para outros, dependendo de quantidade, sazonalidade, pH e da ocasião também. Portanto, dá pra imaginar na distribuição da chuva como um recurso público que Deus precisa administrar. Não que lhe falte verbas, mas porque realmente é um assunto que exige perícia técnica. Pois bem, imagina-se que no PAC (Programa de Aceleração Celestial) de Deus tenha uma cláusula concedendo chuva a todo aquele que pedir. O meu Deus, em contraste, seguirá a risca o plano técnico da Natureza que ele mesmo criou. Os desastres naturais tem um propósito, e até admito que bom seria se fosse publicado em Diário Oficial, o que estancaria especulações de ateus, fundamentalistas e supersticiosos. Talvez até seja, mas como ninguém se interessa muito pelo Diário Oficial até que seu nome esteja nele...
Sem falar que, por ser justo, Deus aplica também punições. Existe alguém são que defenda a extinção do conceito de crime? Existem movimentos civis pra acabar com as penitenciárias? Não é, por acaso, ao contrário, nós exigindo uma justiça mais severa cumprindo a lei doa a quem doer? Por que só a Justiça Divina nos parece antipática?
Bom, acho que é isso. Meu Deus é o modelo de justiça, apesar de ser puro amor. Como tá escrito, ele "repreende a todos quanto ama". Por isso é bom continuar nos esforçando sem contar com paternalismos divinos, mesmo sabendo que há recompensa pra quem cumpre bem a lei. E continue comprando vidros a prova de balas. Não é justo, mesmo, andar desprotegido por aí com os inimigos que você vive comprando...
Memento morri et carpe diem.
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Amei! Embora meu comentário possa ser suspeito! hehehe!
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