Ou "Caminho e meio à solidão"
Tá, começo de cara com uma metáfora sexual: suponha que você acordou um belo dia e descobriu que tinha um órgão novo. E você descobre, explorando-o, seu potencial erógeno. Ora, você espera que seu/sua parceiro/a dê a mesma "importância" para este órgão que já dá para os outros, não é mesmo? Só que, você sabe, você é uma aberração, e aos olhos do seu/sua parceiro/a, isso é algo que não vinha no pacote. Algumas pessoas são muito travadas nessa hora, com seus cérebros, cicatrizados pela pornografia estatizada, tanto que perdem a chance de explorar algo novo naquela mesma pessoa. Não interessa o novo para eles. Eles te "compraram" de um jeito por que você era daquele jeito, e ai de você se mudar!
OK, essa hora sua ex-cara metade já deve ter cruzado a fronteira com o Uruguay, correndo em pavor. Qual o próximo passo? Bem, eu procuraria outras pessoas que desenvolveram o mesmo órgão, ou pelo menos algum outro órgão novo, se não para relacionamento de casual a sério, para compartilhar essa experiência inédita.
Mas, entenda, você não está em Hogwarts ou Nárnia, ou Pandora ou qualquer outro reino fantástico. Você está nesse mundo mesmo, onde pessoas ainda são tidas por doentes por se sentirem atraídas pelo por pessoas do mesmo sexo, ou elos dois, ou por nenhum. É um assunto delicado, e você não sai mostrando seu novo eu por aí dizendo "quem tem um igual?", até porque existe uma baixa probabilidade dessa pessoa querer se expor.
Antes que a indústria pornográfica te transforme numa daquelas bestialidades adoradas por perversos, você vai enfrentar aquela solidão de não ter certeza se você é realmente único, uma exceção, ou se há, para além das rígidas e feias paredes da normatividade, alguém como você, ou pelo menos alguém que te curta do jeito que você é. Não daquela maneira massificada e pré-determinada que se faz desde antes da pré-história, mas de um jeito cúmplice, amigo, único, não só do jeito que você gostaria, mas do jeito que você precisa.
Este somos nós, e você continua dizendo que não somos diferentes.
É claro, o órgão é uma metáfora, é mais uma coisa mental, e o sexo também, a coisa toda inclui mas não se limita a relacionamentos. E sabemos que todos os sentimentos hoje são pasteurizados, embalados em tetrapak e vendidos de volta para você como se você não fosse capaz de desenvolvê-los sozinho. Mas, para alguns de nós, há sentimentos sem precedente, sem jurisprudência, sem modo de preparo e sem dica de quantos segundos deixar no micro.
Num primeiro momento da humanidade, nós seríamos quase normais, pois essa natureza seria só mais uma coisa a descobrir. Depois, dependendo de como as relações de poder se desenvolvessem, seríamos deuses ou demônios. Depois, dependendo de novo das relações de poder, seríamos negados ou catalogados como bizarro desvio da natureza. Por fim, seríamos reunidos no gueto, e com o passar do tempo nos organizaríamos e usaríamos da mesma selvageria que usam contra nós. Enfim, seríamos absorvidos e integrados, e uma significativa parte da indústria lucraria rios com nossas necessidades únicas. Seríamos, seríamos, seríamos.
Mas não fomos. Não tivemos esse direito, e não temos certeza se sentimos falta. Nascemos ontem, e não inventamos mitos para nos justificar. Não queremos roubar seu lugar no topo dessa pirâmide que só você vê. Só temos um órgão a mais para pensar, ou sentir, ou fazer, provavelmente às custas de nos tornarmos incapazes de fazer certas outras coisas que aparentemente TODOS os outros são capazes de fazer. Vê? Nem sequer nos vemos como melhores! Seria uma boa hora para você se permitir essa descoberta, de que há coisas essencialmente diferentes de você mas que, no fundo, são iguais.
Bem, já me perdi do assunto.
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I've been through the desert on a organ with no name....
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