quinta-feira, 1 de março de 2012

Humanos fazem humanidade, 2

Ou: A Dissonância dos Iguais, 23

Adoro chicotear cavalos mortos para puxar minha "carroça do pensamento". Hoje há dois na minha parelha.

Eu ainda me considero cristão. Bem, essa afirmação não tem nada de estranha, em um país cristão de colonização católica e num momento bastante moderado (digo moderado porque quando um político preconceituoso precisa declarar o óbvio em outdoors é a prova que não está bem óbvio). Isso conflita um pouco com meu interesse em filosofia oriental, essencialmente diferente do aristotelismo do qual o Cristianismo é indissociável. E com todo o blablablá pagão do meu discurso. E com minha vida de modo geral. Tá ainda sou um cristão, um cristão de merda, mas também um cristão pensante.

Não estou nem aí pros cristãos e ateus mais radicais que discordam da afirmação ghandesca de que o Cristianismo é ótimo e Cristo é o cara, mas os cristãos são o problema. Pra mim, embora isso pareça à primeira vista um daqueles paradoxos do tipo "o povo estraga a democracia", isso ainda explica muito.

Religiões são construtos sociais. São construídas por humanos. Não vou afirmar (não agora) que os humanos criam os deuses, mas vamos nos limitar a afirmar que religiões são feitas de humanos procurando a Divindade (para servi-la, para consultá-la ou para tomá-la para si). Humanos, esses desconhecidos, são seres históricos porque estão em constante mudança. Daí, as religiões são entidades históricas.
Tá, capitão óbvio, quem não sabe disso? Ora, me afirmem senão há fundamentalistas em ambas as pontas (como na política, "fascistas de direita, fascistas de esquerda", em tudo, aliás).

Dois exemplos de que isso pode ser ignorado:

Havia aquela imagenzinha circulando pela Internet com dois fluxogramas, um mostrando como funciona o pensamento científico e outro o religioso. O científico geraria leis a partir de sucessos em experimentações a partir de idéias. O religioso geraria um loop repetindo uma dada idéia não verificada. Tenho certeza que muito ateuzinho de orkut deu risada dessa imagenzinha, mas também temo que não houvesse um ateu sensato que visse um erro grotesco que rotula tal argumento como panfletagem preconceituosa que é: nem é o pensamento científico é tão dinâmico assim (quem FAZ ciência, não quem escreve sobre isso, sabe: há, sim, dogmatismos e gente que perde o lucro com a inovação), nem a religião é estanque (um bom argumento contra qualquer tradição cristã é uma leitura de 5 minutos da Bíblia; muita coisa mudou desde aquela época). Mas não estou fazendo juizos maniqueístas (ambas são terríveis :p ). "Como toda a religião, a Ciência precisa dialogar com o tradicionalismo. Como toda a ciência, a Religião precisa dialogar com a dúvida".
A Ciência gosta de afirmar sua auto-superação. Alvíssaras por isso, mas não podemos menosprezar a cautela de quem "questiona o questionamento". Imagina o estrago se o pessoal do LHC, por exemplo, se portasse com a credulidade dos paleontólogos de Piltdown (risos).

Um outro exemplo, espero que extinto, que testemunhei há algumas décadas: certas igrejas cristãs elevavam ao nível de DOUTRINA elementos da cultura (como vestuário ou música), notadamente interioranos, em um meio urbano. E enchiam a boca para dizer que seguiam o exemplo da igreja primitiva. Tá, não vamos entrar no mérito do You Fail History Forever por ignorar que o Cristianismo foi, nos primeiros séculos, uma filosofia de vanguarda. Mas façamos o seguinte "esforço": por que valores e costumes urbanos eram chamados "mundanos" enquanto os do interior eram considerados "sagrados"?
Ora, Nostalgia é uma das tendências do Século XXI (não afirmo isso para parecer que é nova, mas que AINDA é atual), não podemos esquecer que a História não é uma linha reta. A cada baliza que chantamos nos livros para nossas crianças (que alguns teimam em chantar na vida adulta) há sempre duas forças, uma puxando para frente e outra puxando para trás, e nenhuma delas é boa ou ruim. Revolução Francesa: Revolução Russa: nem falemos em Março, onde isso é óbvio, mas se fixarmos arbitrariamente Lênin como ponto de referência veremos as paixões puxando números altos para ambos os lados. Havia quem achasse Hitler mole? Havia Resistência alemã? Sim e sim. Havia (e há) judeus antissemitas? Há fascistas israelenses? Sim e sim. Pergunta de ensaísta: Não haveria sempre uma cultura brasileira nostálgica, sempre uma geração "atrás" da história "oficial", se opondo aos valores "pós-modernos"?
Quando se falava de "igreja primitiva", a imagem não era a de apóstolos se reunindo entre cadáveres escondidos dos romanos. Era da igrejinha de humilde arquitetura, tão exaltada no velho cancioneiro protestante, que remetia a memória dos primeiros evangelistas, esses sim, audazes como os primeiros cristãos, adaptando sua cultura européia à roça brasileira, reduto menos resistente ao "avivamento" recente. Assim, é hipocrisia arrogar para sua igreja um legado de 2.000 anos, tanto quanto a Wicca querer respeito maior que o proporcional por seus 60 anos de existência.

Espero que extinto, disse a algum tempo atrás, mas essa extinção não me deixa feliz, realmente. Me faltam dados exatos ou contato pessoal para avaliar a soteriologia de mercado, uma inversão de Weber, um fantasma na década de 80 e um deus no começo do século XXI, que fica evidente nos tele-evangelistas. Mas uma coisa é certa: a religião se modifica, se transforma, se adapta, mesmo que lentamente de geração em geração, ao movimento da sociedade, aos novos modos de vida, de produção e principalmente de comunicação. Mesmo que primeiro resistindo. Afinal, sempre haverá algo novo ao que resistir, concedendo ao velho "mundano" um espacinho no "sagrado".

4 comentários:

  1. (quem FAZ ciência, não quem escreve sobre isso, sabe: há, sim, dogmatismos e gente que perde o lucro com a inovação)


    O avanço tecnológico/científico quase sempre anda na contra-mão do sistema monetário, portanto será combatido até o fim pelos mantenedores do sistema (estes são os "dogmáticos" na equação). Mas as mudanças que estão acontecendo e ainda acontecerão são inevitáveis...


    Obs.: Jesus não vai voltar porque nunca veio, sorry. XD

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  2. Tá ainda sou um cristão, um cristão de merda, mas também um cristão pensante.


    Um cristão anarquista e pagão... Entendi. :)

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  3. "Um cristão anarquista e pagão... Entendi. :)"

    Esqueceu Judeu, Budista, Confucionista, Panteísta e Ateu. Logo, um cristão perfeito :p


    "O avanço tecnológico/científico quase sempre anda na contra-mão do sistema monetário, portanto será combatido até o fim pelos mantenedores do sistema (estes são os "dogmáticos" na equação). Mas as mudanças que estão acontecendo e ainda acontecerão são inevitáveis..."

    Falou e disse.


    "Obs.: Jesus não vai voltar porque nunca veio, sorry. XD"

    Putz, pq a goiaba vem sempre com um bicho?


    Obrigado pela colaboração, Jack! =*

    Treyce, esse aqui em cima é o cara de quem falei o/

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  4. Putz, pq a goiaba vem sempre com um bicho?


    Trollada básica, tio Anarca, huhauahuahauua.

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